Paulo Sérgio: A Vida Entre a Terra, o Rio e a Aventura

 

Paulo Sérgio: A Vida Entre a Terra, o Rio e a Aventura

Aos 78 anos, Paulo Sérgio é um homem de história fascinante. Nascido em Alcoutim, cresceu entre a tranquilidade da agricultura e a adrenalina do contrabando. Se durante a semana ajudava os pais na lavoura, nos fins de semana tornava-se um estrategista do Guadiana, navegando pelas águas como quem conhece cada curva do rio. Hoje, vive sozinho na pequena casa que herdou dos pais, mas vez por outra recebe a visita do filho, Manolo, que mora em Sanlúcar del Guadiana.

Manolo, um homem de espírito livre e aventureiro, herdou do pai a paixão pela vida junto ao rio. Embora tenha seguido um caminho diferente, sempre que visita Paulo, os dois passam horas conversando sobre os tempos antigos, relembrando histórias de contrabando e das noites estreladas em que o Guadiana era mais do que uma fronteira – era um caminho para oportunidades e encontros inesperados. "O rio nos separa, mas também nos une", diz Paulo, com orgulho do filho que construiu sua vida do outro lado da margem.

E falando em encontros inesperados, Paulo não esconde que, nos tempos de contrabandista, teve suas paixões. "Ah, as espanholas!", suspira ele, com um brilho maroto no olhar. "Elas tinham um jeito encantador, uma mistura de mistério e ousadia que fazia qualquer homem perder o rumo – e eu perdi algumas vezes!"

Nas travessias clandestinas, além do café e do tabaco, havia também olhares trocados e promessas sussurradas. Paulo lembra-se de uma noite em que, ao chegar em Sanlúcar, foi recebido por uma festa improvisada, onde dançou flamenco com uma jovem de olhos brilhantes e sorriso travesso. "Nunca soube se ela estava mais interessada em mim ou no café que eu trazia, mas naquela noite, nada mais importava!", conta ele, rindo.

Hoje, Paulo olha para trás com carinho e nostalgia, sabendo que viveu intensamente cada fase da sua vida. O contrabando já não existe, mas as histórias continuam vivas, e sempre que Manolo vem visitá-lo, o passado volta a ganhar vida entre risadas e lembranças. Porque, no fim das contas, a vida é feita de aventuras – e Paulo Sérgio soube vivê-las como poucos.

Das Lavouras ao Contrabando – Uma Dupla Jornada 

Paulo sempre teve um espírito inquieto. Desde jovem, dividia o tempo entre a terra e as águas. De segunda a sexta, era agricultor dedicado, ajudando os pais a cuidar das culturas que garantiam o sustento da família. Mas quando chegava o fim de semana, a história mudava: era hora de atravessar o rio, com café e tabaco escondidos, enfrentando as autoridades e escapando por trilhas conhecidas apenas pelos contrabandistas mais astutos. "O Guadiana era nosso aliado e, às vezes, nosso pior inimigo", brinca ele, lembrando das noites escuras em que a travessia dependia apenas de um farol distante e dos nervos de aço dos envolvidos.

A Música que Embala as Memórias 

Paulo gosta de recordar essa fase com uma música que ele sempre canta baixinho: "Contrabandista de amor e de saudade", cuja autoria ele já não se lembra. Mas para ele, isso pouco importa. O ritmo e a melodia trazem à tona as emoções de tempos passados, e ele jura que, se fechar os olhos, ainda consegue ouvir o murmúrio do rio misturado ao seu próprio assobio.

Alcoutim, Terra de História e Tradição 

Hoje, o contrabando deixou de ser necessidade e tornou-se parte da identidade cultural da região. O Festival do Contrabando, celebrado todos os anos em Alcoutim e Sanlúcar de Guadiana, revive essa época com mercados tradicionais, teatro de rua e música. Paulo participa todos os anos, rindo ao ver turistas tentando atravessar a ponte pedonal flutuante, como se estivessem numa verdadeira missão. "Se eles soubessem como era antes, sem ponte e com a patrulha nos calcanhares, achariam muito mais emocionante!", comenta com um sorriso maroto.

Uma Vida de Aventuras e Simplicidade 

Hoje, Paulo Sérgio aprecia os dias tranquilos na sua casa, rodeado pelas memórias da juventude. Ainda planta algumas coisas, escuta suas músicas antigas e, claro, espera ansiosamente pela visita do filho. "O contrabando acabou, mas a saudade ainda atravessa o rio", diz ele com um olhar nostálgico, mas sem perder o bom humor. Porque, no fim das contas, a vida é uma aventura – seja no campo, no rio ou simplesmente em frente à lareira, contando histórias de um tempo que nunca será esquecido.

Recolha e Adaptação: Albino Monteiro