Alberto: O Escultor das Marés e da Metamorfose

 

Alberto: O Escultor das Marés e da Metamorfose

Numa casinha simples com vista para as dunas da Praia do Barril, em Tavira, vive Alberto, de 68 anos. A poucos passos do mar, rodeado de silêncio, vento e sal, ele dedica os seus dias a transformar o que o oceano devolve em arte: conchas, cordas náuticas, pedaços de madeira à deriva, ferragens enferrujadas e ossos do mar. Tudo se transforma nas suas mãos.

Mas nem sempre foi assim.

Durante mais de 40 anos, Alberto viveu outra vida — atrás de secretárias impecáveis, com fatos escuros e uma agenda milimetricamente organizada. Foi bancário, diretor de agência, senhor de gravata e rotina. Um homem austero, metódico e sempre com os pés no chão.

“Eu era a lagarta,” diz ele. “Produtiva, eficiente… mas fechada no casulo do que se esperava de mim.”

O divórcio veio como um vendaval que desmontou essa estrutura. A filha, Ane Louise, já adulta, partiu para França. E foi sozinho, com tempo nas mãos e um silêncio novo no peito, que Alberto começou a caminhar todos os dias até ao mar. Primeiro para limpar a mente. Depois, para recolher “os esquecidos do mar”.

“Comecei a encontrar coisas que ninguém quer. Mas que, quando olhadas com outros olhos, contam histórias incríveis.”

E assim nasceu o novo Alberto — ou como ele gosta de dizer:

“Hoje eu sou borboleta. Livre, colorida e levemente caótica.”

As suas esculturas, feitas com paciência e delicadeza, misturam elementos do mar com partes de si mesmo. Um cavalo-marinho feito com ferragens e vidro. Um rosto feminino moldado com restos de anzóis. Uma árvore feita de cordas de pesca. Cada peça é um fragmento do oceano… e da sua própria metamorfose.

As pessoas começaram a parar. A perguntar. A comprar. Não só as peças, mas a história.

Hoje, Alberto tem um pequeno espaço ao ar livre que ele chama de “Galeria das Marés”. Nela, recebe visitantes, oferece chá de ervas colhidas no quintal e partilha reflexões com uma sabedoria leve e serena:

“O mar ensina muito. Ele entrega, retira, transforma. A gente só precisa aprender a deixar ir… e depois criar com o que fica.”

De homem de números a artista do acaso

Alberto gosta de brincar com o contraste entre o que foi e o que é:

“Naquela vida, tudo tinha que bater. Aqui, aprendi que a beleza está no que não encaixa perfeitamente.”

Ele diz que sua vida hoje é mais lenta, mais silenciosa — e infinitamente mais rica. Não por dinheiro, mas por significados. Por encontros inesperados, conversas com estrangeiros na areia, por crianças que o ajudam a recolher conchas e pela liberdade de ser, simplesmente, quem se tornou.

“Se eu sou feliz hoje como borboleta, é porque fui uma boa lagarta.”
A metamorfose não nega o passado — ela agradece por ele ter existido.

Recolha e adaptação: Albino Monteiro