Joaquim Matos: Entre Versos, Memórias e um Bom Copo de Vinho
Joaquim Matos: Entre Versos, Memórias e um Bom Copo de Vinho
Aos 81 anos, Joaquim Matos é um verdadeiro contador de histórias. Nascido na freguesia de São João da Pesqueira, no coração do Douro Vinhateiro, cresceu entre vinhedos e tardes douradas à beira do rio. Hoje, mora sozinho em um lar de idosos em Peso da Régua, mas nunca passa um dia sem recitar um poema ou recordar os tempos em que a vida era feita de sonhos e desafios.
Uma Infância Entre Uvas e Aventuras
Joaquim sempre diz que teve uma infância "com cheiro de vinho e sabor de liberdade". Cresceu correndo pelos campos de vinhedos, ajudando o pai na colheita e ouvindo histórias dos mais velhos sobre o Douro e suas tradições. "O rio era nosso espelho e os montes, nosso palco", relembra com um sorriso nostálgico.
Nos dias de festa, a aldeia se enchia de música e alegria. As famílias reuniam-se para celebrar a vindima, e Joaquim, ainda menino, já ensaiava seus primeiros versos, inspirado pelas paisagens que o cercavam. "O Douro ensina poesia sem precisar de livros", diz ele.
Juventude: Amores, Sonhos e Realidades
Na juventude, Joaquim sonhava em ser escritor, mas a vida levou-o por outros caminhos. Apaixonou-se por Isabel, uma jovem de olhos castanhos e riso fácil, com quem viveu um amor intenso. "Ela era minha musa, minha inspiração", conta. Mas o destino, sempre imprevisível, separou-os, e quando Isabel teve que partir para Lisboa. Joaquim nunca esqueceu aquele amor, e até hoje, seus poemas carregam a saudade de tempos que não voltam.
Uma Vida Entre Livros e Assinaturas
Joaquim dedicou sua vida ao Notariado, tornando-se um dos mais respeitados notários da região. Durante décadas, lidou com testamentos, contratos e histórias que se cruzavam em sua mesa. "Cada assinatura era um novo capítulo na vida de alguém", diz ele.
Certa vez, um cliente quis deixar toda a sua fortuna para seu cão. "Bem, se o cão aprender a gerir contas bancárias, não vejo problema!", brincou Joaquim, arrancando risadas dos presentes.
A Poesia: Seu Refúgio e Sua Voz
Se há algo que nunca mudou na vida de Joaquim, foi sua paixão pela poesia. Desde jovem, encontrou nas palavras uma forma de expressar emoções e registrar momentos. Hoje, no lar onde vive, mantém um caderno surrado, onde escreve sobre saudade, esperança e memórias que ainda iluminam seus dias.
Tem uma coleção de livros de poesia, com autores que admira profundamente: Fernando Pessoa, com sua melancolia profunda; Miguel Torga, que descreve Portugal como ninguém; Vinícius de Moraes, que transformou o amor em arte. Seus versos favoritos estão sempre ao alcance da mão, e ele recita com emoção, como se cada palavra fosse um pedaço da sua alma.
"Poesia é como a vida – tem seus altos e baixos, seus ritmos e pausas. Não há verso perdido, assim como não há momento que não valha ser vivido", reflete ele. Seus companheiros de lar já se acostumaram a vê-lo declamar em voz alta, muitas vezes com emoção nos olhos. Para Joaquim, a poesia é mais do que palavras – é um refúgio, um abraço invisível e uma forma de manter Isabel sempre por perto.
Uma Vida Bem Vivida
Joaquim Matos prova que a vida é feita de capítulos – alguns escritos com tinta permanente, outros rabiscados em lápis. Com o coração ainda cheio de palavras, ele segue transformando lembranças em poesia e aproveitando cada dia como uma página nova.
"O segredo para um bom poema? Sentir. O segredo para uma boa vida? O mesmo."
Recolha e adaptação: Albino Monteiro
