A Senhora da Casa Azul

 


A Senhora da Casa Azul

Na pacata vila de Monsaraz, onde o tempo parecia correr devagar entre as muralhas e os vinhedos, vivia Dona Estela, uma senhora de 78 anos, sempre vestida de azul, conhecida por sua memória afiada e jeito misterioso. Morava sozinha numa casa antiga com azulejos desbotados, mas bem cuidada, no alto da colina. Diziam que ali, durante a ditadura, se escondiam mensagens codificadas e gente em fuga. Mas ninguém sabia ao certo.


Numa manhã fria de outubro, enquanto tomava seu café com broa de milho, Estela recebeu uma carta sem remetente, escrita à mão, dizendo: "O tempo chegou. Abre o armário atrás do retrato." Seu coração disparou. Fazia mais de cinquenta anos que não ouvia nada sobre ele.


Com as mãos trêmulas, afastou o retrato do seu falecido marido — um homem reservado, que dizia ter "segredos de guerra". Atrás dele, um pequeno alçapão revelava uma caixa de madeira. Dentro, havia mapas antigos, uma bússola e um medalhão com um símbolo que lembrava vagamente dos tempos da juventude.


Determinada, Estela embarcou numa jornada que a levou por aldeias esquecidas, estações abandonadas e até às escarpas da serra da Arrábida. A cada lugar, deixava pistas e encontrava outros velhos conhecidos — como se um antigo grupo estivesse se reunindo de novo.


Na verdade, Estela fora parte de uma rede de resistência cultural que, durante o Estado Novo, guardava segredos em obras de arte, poemas e cantigas populares. Agora, em plena democracia, uma última missão surgia: revelar ao mundo um tesouro escondido — não de ouro, mas de verdades apagadas da história.


E foi assim que, aos 78 anos, Dona Estela se tornou uma heroína nacional, não com armas ou violência, mas com coragem, inteligência e a força da memória.



Recolha e adaptação: Gabriel Silva