Suzana Martins – Guardiã das Vinhas e das Estações
Suzana Martins – Guardiã das Vinhas e das Estações
Suzana Martins, hoje com 72 anos, é uma presença serena mas imponente na paisagem de Alijó, no coração do Douro vinhateiro. Vive com António, seu companheiro de uma vida, numa casa de pedra rodeada por socalcos que respiram história e uvas maduras. A vinha, para Suzana, não foi apenas trabalho: foi legado, foi raiz, foi vida partilhada ao sol e à intempérie.
Desde menina que conhece os ritmos da terra. “A vinha não espera por ninguém”, costuma dizer, com um sorriso firme e mãos marcadas pelo tempo. Aprendeu com os pais a arte da poda, a precisão do enxerto e a dureza das vindimas – esse tempo mágico e cruel em que a natureza revela o que guardou durante o ano inteiro. “Havia anos de fartura e outros de pura desilusão”, conta, olhando o horizonte como quem revive cada estação.
Com António, partilhou décadas de trabalho na quinta, hoje entregue hoje, aos cuidados da filha Mariana. Mas engane-se quem pensa que Suzana está aposentada do campo. “Quando a saúde deixa, ainda meto as mãos na terra. Não consigo viver só de ver”, admite, com brilho nos olhos e uma pá ao canto da varanda.
As histórias que Suzana conta são marcadas por uma sabedoria prática e uma ternura bem-humorada. Como na vez em que, durante uma vindima particularmente quente, confundiram um balde de uvas com um balde de água e quase fizeram mosto na fonte do largo. Ou no inverno em que uma geada traiçoeira destruiu metade da produção, mas acabou por unir a aldeia num esforço coletivo que ela descreve como “um milagre de vizinhança e vinho quente”.
Não fala apenas das dificuldades. Suzana também celebra os pequenos milagres: a primeira uva doce da época, a chuva que chega na hora certa, o olhar cúmplice de António ao fim de um dia exausto. “A vinha ensina-nos a esperar. E ensina-nos a perder. Mas também a recomeçar”, afirma com a voz segura de quem já viu muitos outonos e invernos passarem.
Hoje, os dias de Suzana são divididos entre o campo, a cozinha e a varanda onde gosta de bordar e ver o mundo passar, ao som das gargalhadas dos netos. Continua a ser uma figura querida na vila – seja pelo vinho caseiro que ainda produz em pequenas quantidades, seja pelos conselhos sábios que partilha com os mais novos.
Para Suzana, a vida é como uma vindima: exige paciência, força e fé no que há de vir. E mesmo quando a colheita é pouca, há sempre algo que vale a pena guardar – nem que seja uma boa história para contar.
Recolha e adaptação: Albino Monteiro
