Sinval Oliveira: O Artista das Ferramentas e do Coração II

Sinval Oliveira: O Artista das Ferramentas e do Coração II

Aos 72 anos, Sinval Oliveira é muito mais do que um antigo marceneiro — é um verdadeiro escultor da vida, alguém que aprendeu a transformar a matéria bruta não só da madeira, mas também das emoções e do tempo. Nascido em Faro, mas de alma tranquila e raízes profundas, encontrou o seu recanto de paz na Luz de Tavira, onde vive numa pequena casa de paredes brancas, pátio com buganvílias e o cheiro constante da madeira trabalhada.

A sua casa é também um ateliê da memória. Cada canto guarda um pedaço da sua história, cada móvel tem a sua assinatura invisível. Mas é na arrecadação, que ele carinhosamente chama de “santuário das ferramentas”, que o passado ganha voz.

“Isto aqui é mais do que uma oficina… é a minha história em forma de ferro e madeira.”

Sinval caminha entre formões gastos, martelos com cabo de nogueira, plainas que já foram do seu pai — cada uma com um nome, um uso, uma lembrança. Ele explica o uso de cada ferramenta com um brilho nos olhos que mistura orgulho, saudade e amor. É como se estivesse a apresentar velhos amigos.

“Essas não são apenas ferramentas. São as minhas companheiras de vida. Fizeram-me homem, artista e, de certa forma, filósofo também.”

Nos momentos de pausa — que ele insiste em chamar de “tempo de criação” — Sinval dedica-se ao seu hobby favorito: esculpir pequenas obras em madeira. Criaturas do mar e do campo ganham forma nas suas mãos: pássaros que parecem prestes a levantar voo, barcos minúsculos que quase sentem a maré, figuras humanas com expressões doces e silenciosas.

Um dia, um vizinho curioso perguntou:

“Ó Sinval, mas onde é que se aprende esse talento todo?” E ele, com um sorriso matreiro e a típica boa disposição alentejana, respondeu: “Ora, vem do mesmo lugar que a paciência para namorar a Paula!”

Paula, sua companheira atual, é a verdadeira obra-prima da sua vida tardia. Chegou de mansinho, numa fase em que muitos já acham que o amor é capítulo encerrado. Mas com ela, Sinval redescobriu que o coração também pode ser moldado, lixado e polido até brilhar de novo.

“Paula é madeira nobre — difícil de trabalhar, mas bonita demais para desistir. Foi um trabalho de arte, mas valeu cada segundo!”

O casal partilha passeios pela ria, cafés lentos, silêncios cheios de significado e uma cumplicidade que só quem já viveu muito é capaz de cultivar. Para Sinval, amar na maturidade é como esculpir em madeira antiga: exige mais cuidado, mas oferece uma beleza que só o tempo consegue revelar.

Uma lição entalhada em madeira

Sinval ensina, com simplicidade e afeto, que a vida é uma longa escultura: cada escolha é um entalhe, cada erro um nó, e cada gesto de amor um polimento delicado. Ele prova que nunca é tarde para criar, amar, ou simplesmente começar um novo capítulo com alma inteira.

“O ser humano é como a madeira — se bem tratada, envelhece com dignidade e beleza.”

E mais do que isso, Sinval lembra-nos que somos seres sociais por natureza. Que o convívio é a luz que alimenta a alma, tal como o sol alimenta as árvores.

“A solidão seca por dentro. Mas estar com os outros… isso é fotossíntese para o coração.”

Recolha e adaptação: Albino Monteiro



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