Biografias: Diamantino Monteiro

 

Diamantino Monteiro

Um Homem Forjado pelo Trabalho, Pela Terra e Pelas Raízes

Capítulo I – Origens e Infância

No coração da Beira Alta, entre colinas suaves, vinhedos antigos e olivais centenários, ergue-se a pequena aldeia de Cubos, no concelho de Mangualde. Em abril de 1927, nascia ali Diamantino Monteiro — ou, como prefere ser chamado, simplesmente Monteiro. A aldeia, com suas casas de granito, muros cobertos de musgo e caminhos de terra batida, era um mundo à parte, moldado pelo ritmo das estações, pelo soar dos sinos e pelas mãos calejadas de quem ali vivia da terra.

Monteiro cresceu num lar de agricultores, de origens humildes mas dignas, onde não havia luxo, mas reinavam a solidariedade, o trabalho e a partilha. A casa, feita de pedra, tinha o chão frio no inverno e guardava nas paredes o calor das brasas e das vozes familiares. A mesa era farta do que a terra oferecia: pão amassado com esforço e cozido em forno a lenha, o cheiro forte do fumeiro pendurado nas traves e a bênção de uma família unida.

Ali vivia com os irmãos Margarida, António e Marcelino. Joaquim, o mais velho, já se encontrava emigrado para o Brasil com o pai, numa ausência que marcou a infância de Monteiro. O pai, embora distante, fazia-se presente através de cartas esparsas e dos envelopes com dinheiro que enviava quando podia. Essa figura paterna só se tornaria concreta anos mais tarde, quando Monteiro tinha entre catorze e dezasseis anos — uma breve convivência antes de o pai retornar novamente ao Brasil, deixando a terra sob a administração firme da mãe.

Durante os primeiros anos, Monteiro e o irmão António foram criados quase exclusivamente por ela — uma mulher forte, determinada, que se impôs com coragem diante da responsabilidade de criar os filhos e cuidar da pequena propriedade familiar. Cresceram, como se dizia, “agarrados à sua saia”, aprendendo não apenas a plantar e colher, mas também a respeitar, agradecer e persistir.

Cubos era um lugar onde todos se conheciam pelo nome e pelas histórias — histórias passadas de geração em geração, contadas ao calor da lareira nas longas noites de inverno. As tradições locais estavam profundamente enraizadas no quotidiano, e poucas eram tão marcantes como a matança do porco. Esse ritual anual era mais do que uma necessidade alimentar; era um evento social, uma celebração de sobrevivência e comunhão. Desde o amanhecer até ao final do dia, o quintal enchia-se de vizinhos, aromas e tarefas partilhadas — uma verdadeira coreografia de saberes populares, onde cada um tinha o seu papel.

Monteiro lembra-se de brincar na terra, junto a uma oliveira antiga que ainda hoje resiste ao tempo, como se guardasse em silêncio os risos de infância e os primeiros sonhos. A terra era o seu brinquedo e, ao mesmo tempo, seu ideal. Trabalhar nela, ao lado da mãe, era o que mais desejava quando criança. A infância foi vivida ao ritmo da natureza, com o céu amplo por teto e os montes como horizonte.

Esse mundo pequeno em tamanho, mas vasto em significados, moldou profundamente o seu caráter. Ali, entre as searas e as estações, Monteiro aprendeu as virtudes que o acompanhariam por toda a vida: a resiliência silenciosa, o valor do esforço, a importância da palavra dada, o respeito pela terra e pelas pessoas.

Mesmo quando a vida o levou a trilhar outros caminhos e a cruzar oceanos, as memórias da aldeia nunca o abandonaram. O cheiro da terra molhada, as cantigas que vinham do longe, o badalar dos sinos da igreja ao domingo — tudo isso vive ainda em sua memória e em sua forma de estar no mundo.

Cubos não foi apenas o lugar onde nasceu. Foi o seu primeiro universo, o alicerce invisível de tudo o que viria a construir. Mais do que uma aldeia no mapa, Cubos é, para Monteiro, uma herança espiritual. Um tempo, uma memória, um modo de ser que ele nunca deixou para trás.

Capítulo II – As Memórias da Infância

Desde muito novo, Monteiro acalentava um sonho simples, mas carregado de significado: trabalhar a terra ao lado da mãe. Para ele, a terra não era apenas um espaço de cultivo — era um lugar de ligação, de herança e de afeto. Via na mãe, com o seu avental gasto e mãos calejadas, uma heroína silenciosa, que conduzia os dias com uma força que ele aprenderia a admirar para sempre.

Frequentou a escola primária local, onde completou a 4.ª classe — o máximo que a maioria dos jovens da aldeia alcançava naquele tempo. Ainda assim, guardou com carinho a lembrança da professora Ermelinda, mulher de presença firme e fala doce, que incentivava os meninos a verem o mundo para além dos montes que os rodeavam. Monteiro lembrava-se da sua letra desenhada no quadro de lousa, das histórias que ela contava, e do respeito que incutia mesmo sem levantar a voz. Apesar do gosto pelo saber, os estudos foram interrompidos cedo, como era costume em famílias que dependiam do trabalho dos filhos para o sustento diário.

A juventude de Monteiro decorreu entre responsabilidades precoces e escassos momentos de lazer. O trabalho no campo era diário, com jornadas longas e exigentes, especialmente nas épocas de sementeira e colheita. Havia, contudo, pequenas alegrias que rompiam o ciclo do labor: uma ou duas festas por ano — como a festa da aldeia e a da padroeira — e a missa dominical, momentos em que a aldeia inteira se reunia, num raro intervalo de música, encontros e partilhas.

Em casa, à noite, as cartas do pai tornavam-se eventos solenes. Quando chegava uma, era lida em voz alta por um vizinho que sabia ler, diante da lareira, com todos em silêncio. Eram mensagens breves, muitas vezes apenas para dizer que estava bem e que mandava algum dinheiro. Mais tarde, quando Monteiro aprendeu a ler, passou ele mesmo a reler essas cartas vezes sem conta, como se quisesse prolongar o contato com aquela figura paterna ausente, mas carregada de esperança. Cada palavra era saboreada, como um eco distante de um mundo maior, mais além da aldeia.

Essas pequenas memórias — do cheiro da terra molhada, da brisa que atravessava os campos ao entardecer, das cartas guardadas numa gaveta da cozinha — ficaram para sempre com Monteiro. Eram lembranças de um tempo austero, mas formativo, em que aprendeu o valor do silêncio, da escuta e da constância. Foram esses os anos em que se moldou o homem que mais tarde atravessaria o Atlântico em busca de um futuro incerto, mas sustentado por raízes profundas e por uma infância onde tudo o que era essencial se aprendia com os olhos e com as mãos.

Capítulo III - Juventude  20 anos

Cubos, 1947: O Mundo de Monteiro

Em 1947, a aldeia de Cubos, no concelho de Mangualde, distrito de Viseu, era um retrato vivo da ruralidade portuguesa do pós-guerra. A paisagem era marcada por campos de cultivo, oliveiras, casas de pedra e uma vida feita de esforço, tradição e solidariedade. Portugal vivia ainda fechado sobre si mesmo, sob o regime do Estado Novo, liderado por António de Oliveira Salazar, e todo o país, especialmente o interior, sentia os efeitos de um tempo austero, conservador e escasso.

Foi nesse contexto que Monteiro, com apenas vinte anos, via o mundo a partir de um horizonte estreito mas profundamente enraizado. O seu universo era aquele pedaço de terra onde nascera e crescera, entre a casa modesta que partilhava com os irmãos, os campos que lavrava com a mãe e os pequenos rituais que davam sentido aos dias. A educação era limitada — Monteiro completara apenas a quarta classe — e o acesso à informação era escasso. Quando chegava, vinha pela rádio, por jornais passados de mão em mão, ou pelas histórias de alguém que regressava da tropa ou de uma visita rara à cidade.

Naquele tempo, Portugal ressentia-se ainda das dificuldades económicas causadas pela Segunda Guerra Mundial. Apesar da neutralidade oficial, o país sofria com o racionamento de bens, a lentidão no desenvolvimento e uma agricultura que se mantinha arcaica. Em Cubos, a vida era guiada pelo ritmo das estações. Plantava-se milho, feijão, batatas; colhia-se azeite, produzia-se vinho, e criava-se o porco cuja matança anual era mais do que uma tradição — era um acontecimento social e económico de extrema importância para cada família.

Os campos eram trabalhados com arado de bois, o saneamento era rudimentar, e a eletricidade, quando existia, era uma raridade. A água vinha da fonte pública, e as roupas eram lavadas no tanque comum. Era uma existência dura, mas partilhada, feita de laços fortes entre vizinhos, e de um profundo respeito pela terra.

Monteiro via o mundo com olhos formados pelo localismo. Não conhecia mais do que a sua aldeia e os arredores. E, no entanto, era um mundo completo: feito de cheiros, de sons, de memórias. O canto do galo a anunciar o dia, o sino da igreja que marcava as horas, o pão cozido em forno a lenha, o burburinho das conversas à lareira durante as noites frias de inverno. Tudo fazia parte de um tecido coletivo onde cada elemento — por mais pequeno — tinha valor.

O futuro, para ele, não era feito de viagens nem de estudos. Era feito de continuidade. Trabalhar a terra, formar família, manter viva a tradição. Sonhava, como tantos outros, com pouco, mas sentia muito. E, por isso, quando anos mais tarde tomaria a decisão de emigrar para o Brasil, seria um gesto de coragem quase inimaginável — uma rutura com tudo o que conhecia, motivada não por ambição, mas por necessidade.

Na sua essência, Cubos era o início de tudo. Um lugar pequeno, mas pleno de sentido. Onde cada pedra, cada árvore, cada curva do caminho lhe era familiar. Onde os rostos envelheciam devagar, e o tempo parecia ter um outro ritmo — mais lento, mais próximo da terra, mais próximo da vida.

Capítulo IV – Dos 20 aos 26 anos: Um Novo Despertar

Aos vinte anos, Monteiro começou a perceber que o mundo se estendia para além dos campos da sua aldeia. O grande marco dessa descoberta foi o cumprimento do serviço militar obrigatório, que decorreu entre os 21 e os 22 anos, na cidade de Viseu. Ali, pela primeira vez, conviveu de forma mais próxima com jovens de outras partes da Beira Alta e de várias províncias portuguesas. As conversas, os sotaques diferentes, os sonhos partilhados nas noites do quartel acenderam nele uma inquietação: talvez a vida pudesse ser mais do que a terra que já conhecia de cor.

Concluído o serviço militar, Monteiro regressou à aldeia e, como era esperado, voltou ao trabalho agrícola — o seu primeiro ofício formal, ainda que já fosse uma extensão natural da infância e da juventude. Lavrar, semear, colher: tarefas que exigiam força física e resistência, mas que também ofereciam um tipo de paz interior que ele só encontrava na terra.

No entanto, logo surgiu uma nova oportunidade: um trabalho nos Caminhos de Ferro, na construção de ferrovias. Aceitou o desafio com a coragem que sempre o guiou. Era um ofício duro, penoso, debaixo de sol ou de chuva, com jornadas longas e esforço extremo. Monteiro lembrava-se bem do peso dos trilhos, da rigidez do ritmo e da exigência constante. "A agricultura era um doce", costumava dizer, comparando o trabalho no campo à dureza daquelas obras.

Nesses anos, começou a ouvir falar com insistência das Províncias Ultramarinas — sobretudo Angola e Moçambique. Para muitos, esses territórios representavam o “Eldorado português”: terras vastas, ricas, promissoras. Dizia-se que, para um homem trabalhador, lá havia de tudo: trabalho, prosperidade e espaço para crescer. Mas havia um entrave importante — só se podia emigrar legalmente com autorização do Estado Novo, algo reservado a poucos e difícil de obter.

Foi então que a ideia do Brasil começou a ganhar força. A ligação familiar já existia: seu irmão Joaquim estava lá desde muito jovem, e o pai, que também havia emigrado para terras brasileiras décadas antes, tinha retornado a Portugal apenas quatro anos antes — e falecera logo depois. Joaquim, estabelecido e com alguma estabilidade, enviou-lhe uma carta de chamada. Era o que Monteiro precisava para dar o passo decisivo.

Assim, entre os 25 e os 26 anos, Monteiro deixou a aldeia, a mãe, os irmãos, os campos e as oliveiras — levando consigo apenas uma mala, um coração apertado e uma coragem silenciosa. Partia rumo ao Brasil, não como turista, mas como emigrante — alguém que vai sem saber ao certo o que encontrará, mas disposto a tudo para construir uma vida digna. Era o fim de uma etapa e o começo de um novo despertar.


Capítulo V – Chegada e Adaptação ao Brasil (1953)

Em 1953, Monteiro desembarcou no porto do Rio de Janeiro, trazendo consigo pouco mais do que a esperança no futuro e a determinação forjada nas terras duras da Beira Alta. A capital fluminense era um mundo completamente novo e vertiginoso. As avenidas largas e cheias de vida, o trânsito caótico, o calor úmido que parecia não ter fim, os sotaques variados e a multidão apressada compunham um cenário que contrastava brutalmente com o silêncio ordenado da aldeia de Cubos.

O Brasil vivia então uma fase de transição e crescimento. Getúlio Vargas, após um retorno ao poder em 1951, governava com uma política nacionalista, voltada para o desenvolvimento industrial e a proteção das classes trabalhadoras. O país, embora ainda marcado por desigualdades profundas, dava passos significativos rumo à modernização: a indústria expandia-se, a urbanização acelerava-se e havia uma crescente migração de brasileiros do campo para as cidades, além de uma nova vaga de imigrantes europeus, sobretudo portugueses, italianos e espanhóis, em busca de oportunidades.

Nesse contexto, a economia brasileira oferecia possibilidades que Portugal, sob o regime fechado do Estado Novo de Salazar, ainda não conseguia proporcionar. Em Portugal, a ruralidade dominava; a indústria era incipiente e o acesso a empregos urbanos, educação e bens de consumo era restrito. O Brasil, apesar dos seus próprios desafios, simbolizava o “país do futuro”, e para um homem como Monteiro, habituado ao esforço e à escassez, essa era uma promessa impossível de ignorar.

Foi acolhido pelo irmão Joaquim, já estabelecido, que o ajudou nos primeiros tempos. A rede familiar foi essencial para amortecer o choque da emigração. A saudade da mãe e da terra era profunda, mas havia agora um novo horizonte a construir.

Conseguiu trabalho como metalúrgico na Carroceria Metropolitana, uma empresa de construção de carroçarias de autocarros. O ambiente era barulhento, quente e exigente. As máquinas, os ritmos industriais, os procedimentos técnicos — tudo era novo para quem vinha do mundo da enxada e do arado. Nos primeiros dias, sentiu-se deslocado, quase sufocado pela velocidade com que tudo acontecia à sua volta.

Foi então que conheceu Deodato, um colega brasileiro de fala fácil e espírito generoso. Deodato tomou Monteiro sob sua asa, ensinando-lhe os primeiros gestos da profissão, explicando o funcionamento das máquinas, ajudando-o a interpretar os termos técnicos e a adaptar-se ao novo ambiente. Essa amizade foi uma tábua de salvação num mar onde a diferença cultural, por vezes, se transformava em preconceito.

Monteiro, ainda com hábitos da sua terra, usava tamancos de madeira — calçado típico, rústico e funcional, comum em zonas rurais de Portugal, mas que causava estranheza no Brasil urbano. O som dos tamancos nos corredores metálicos da oficina anunciava sua chegada com um eco inconfundível. Para muitos colegas, aquilo era motivo de riso. Chamavam-lhe “o português da roça”, gozavam com o seu andar pesado, imitavam o som dos passos, troçavam do seu sotaque e dos seus modos reservados.

Mas Monteiro respondeu como sempre soube fazer: com trabalho. Não discutia, não se justificava. Deixava que os resultados falassem por si. Com o tempo, o “português da roça” mostrou-se um operário atento, competente, resiliente. Os colegas passaram a respeitá-lo, não apenas pela força física, mas pelo compromisso, pela honestidade e pela consistência. O som dos tamancos, antes motivo de escárnio, passou a ser reconhecido como o som de alguém em quem se podia confiar.

Aos poucos, adaptou-se ao Brasil. Aprendeu a língua do dia a dia, ajustou os hábitos, comprou calçado novo. Mas nunca esqueceu os tamancos, nem o que simbolizavam. Para ele, eram mais do que um simples par de sapatos rústicos — eram uma extensão das suas raízes, um lembrete de onde viera e do caminho que já percorrera.

Naquele início difícil, Monteiro compreendeu uma verdade essencial: a adaptação não significava renegar as origens, mas saber integrá-las no novo contexto, com dignidade. Os primeiros anos no Brasil, marcados pela superação do estranhamento e pela conquista do respeito, moldaram profundamente a sua identidade como emigrante — e como homem.


Capítulo VI – A Freguesia de Pão: De Empregado a Empreendedor

Com o passar dos anos, Monteiro percebeu uma verdade fundamental do mundo do trabalho: por mais honesto e digno que fosse, o salário de empregado tinha sempre um limite — era contado, fixo, muitas vezes insuficiente para os sonhos de quem viera de tão longe. O esforço valia, mas a liberdade era pouca. Foi essa consciência, aliada à convivência com outros patrícios — portugueses que, como ele, tinham emigrado para o Brasil — que começou a despertar nele o espírito empreendedor.

Muitos desses compatriotas haviam trocado o ofício duro da construção ou da indústria pelo comércio de alimentos e bebidas. Bares, mercearias, padarias: negócios simples, mas rentáveis, quando conduzidos com trabalho e dedicação. Monteiro ouviu histórias de sucesso, viu exemplos concretos e, com algum dinheiro guardado das horas extraordinárias feitas na metalurgia — num tempo em que trabalho não faltava — decidiu dar o passo.

Foi assim que comprou uma “freguesia de pão” — termo usado para designar uma rota de distribuição domiciliária, muito comum entre emigrantes portugueses na década de 1950. Naquele tempo, os bairros do Rio de Janeiro ainda não tinham padarias em cada esquina. O “padeiro ambulante” era uma figura central no quotidiano dos moradores. Passava todos os dias, à mesma hora, trazendo o pão fresco antes do nascer do sol. Era mais do que um vendedor: era uma presença confiável, parte da rotina das famílias.

Monteiro tornou-se rapidamente uma dessas figuras. Começava o dia antes das primeiras luzes, montado numa bicicleta robusta, adaptada com grandes cestos à frente e atrás, carregados de pães, broas, sonhos e roscas. A sua rota era no bairro da Penha, zona de ruas inclinadas, calçamento irregular e casas de classe média e operária. Pedalava por ali diariamente, enfrentando o calor húmido do Rio, a chuva imprevisível e o peso constante das cargas.

A entrega era feita casa a casa, muitas vezes em silêncio, apenas com o som dos pneus sobre a pedra e o aroma inconfundível do pão morno a anunciar a chegada. A bicicleta de Monteiro tornou-se reconhecida, quase um relógio vivo do bairro. As pessoas sabiam quando ele passava, algumas até saíam à porta para lhe entregar o pagamento semanal ou pedir “mais dois pães amanhã”.

Era um trabalho exigente, físico e sem descanso. Fim de semana não era sinónimo de folga, pois o pão não esperava. E Monteiro nunca falhava. A sua pontualidade, discrição e seriedade granjearam-lhe rapidamente o respeito dos fregueses. Sabia o gosto de cada cliente — quem preferia broa, quem queria o pão mais clarinho, quem pagava na hora e quem só no fim da semana. Mas acima de tudo, confiavam nele.

Essa confiança era o pilar de tudo. Na ausência de faturas, registos digitais ou contratos, valia a palavra dada — tanto de quem comprava como de quem vendia. Monteiro cultivou essa ética com rigor. Para ele, um acordo verbal era tão sagrado quanto uma assinatura. E os clientes sentiam isso. Recomendavam-no a outros, ofereciam-lhe um café, abriam-lhe as portas das casas e, mais importante, mantinham-se fiéis.

Com o tempo, a freguesia não era apenas um negócio; era uma comunidade que ele ajudava a alimentar. E foi esse pequeno grande passo — trocar o salário fixo pela construção do próprio sustento — que o levou a um novo patamar de vida. A estabilidade financeira começava a esboçar-se, e com ela nascia o desejo de ir mais longe. O comerciante que existia dentro do jovem de Cubos estava agora desperto. E não voltaria a adormecer.

Capítulo VII – A Vida em Rocha Miranda: 

O Seu Botequim

Depois de dois anos a pedalar diariamente pelas ruas da Penha, carregando cestos de pão ao ombro da alvorada ao meio-dia, Monteiro começou a perceber que o corpo cobrava o esforço e que o seu olhar empreendedor pedia novos desafios. Já conhecia bem os hábitos dos brasileiros, o ritmo da cidade, as oportunidades do comércio. Sempre atento, e com algum capital acumulado graças à disciplina de poupar cada centavo, decidiu investir num novo projeto.

Foi então que surgiu Rocha Miranda, um bairro de classe média emergente, na zona norte do Rio de Janeiro, onde o movimento era crescente e os espaços de convivência começavam a florescer. Ali, em parceria com um sócio — outro português, também de origens humildes — comprou um botequim modesto. Mais do que um simples bar, o espaço funcionava como mercearia, café, tasca e ponto de encontro. Vendia-se de tudo um pouco: café passado na hora, cachaça da boa, petiscos simples, cigarros, pão, açúcar e até arroz em saquinhos medidos à mão.

O botequim tornou-se rapidamente um ponto de referência no bairro. Trabalhadores da construção civil, pequenos comerciantes, taxistas e até senhoras que vinham “buscar um cafezinho” faziam dali parte da sua rotina. O segredo do sucesso? Simples: o bom trato com os clientes, o sorriso sempre disponível, a escuta atenta às histórias de cada um, e a organização quase militar com que Monteiro conduzia o negócio. O espaço era limpo, bem arrumado, com prateleiras cheias e contas em dia — algo nem sempre comum nos botequins da época.

Ali, com um balcão à frente e uma vida mais estável, Monteiro sentiu que, aos poucos, o imigrante solitário começava a dar lugar a um homem com raízes em terra estrangeira. Já com 35 anos, com um negócio rentável e uma rotina estabelecida, começou a pensar no próximo passo — o mais importante de todos: formar uma família.

Naquele momento da vida, o que antes era apenas sobrevivência começava a dar espaço ao desejo de permanência. Deixava de ser apenas o “português que veio ganhar a vida no Brasil” para se tornar um homem que queria construir algo mais profundo: uma casa, uma mulher companheira, filhos que pudessem herdar não só o que tinha, mas quem ele era.

Rocha Miranda não foi apenas o lugar do seu primeiro negócio fixo — foi também o cenário onde germinaram os sonhos de futuro. O botequim, com seu cheiro de café e cachaça, seus fregueses habituais e as tardes longas atrás do balcão, foi palco de uma nova fase: menos nómada, mais enraizada. E Monteiro, com os pés fincados no chão e o olhar mais calmo, sabia que ali algo começava a mudar.

O comerciante crescia, mas era o homem, sobretudo, que despertava para um novo ciclo da vida.

Capítulo VIII – Quem Procura Acha

A Sua Companheira e Amada Carmem

Foi durante essa fase de estabilidade em Rocha Miranda, com o botequim já bem encaminhado e a vida mais organizada, que Monteiro começou a sentir um novo vazio — um silêncio diferente, não de ausência material, mas de partilha emocional. Já com 35 anos, sentia que faltava alguém com quem dividir os dias, os sonhos e o que ainda viria pela frente. E como tantas vezes na sua vida, não procurou com pressa, mas com atenção.

Todas as noites, ao fechar o seu botequim, Monteiro seguia um pequeno ritual: atravessava algumas ruas e sentava-se por breves instantes no “Bar do Espanhol”, um ponto vibrante do bairro, conhecido pela boa conversa, pelas tapas bem servidas e pelo riso contagiante do proprietário, Francisco — um galego falador, de voz rouca e alma generosa. Era um espaço descontraído, onde se reuniam amigos, vizinhos e comerciantes ao fim do dia para dois dedos de conversa e um copo de cachaça.

Foi ali, entre uma troca de palavras casuais e olhares discretos, que Monteiro conheceu Carmem — filha de Francisco. Ao contrário do pai, era reservada, de fala baixa e gestos calmos. Os olhos, no entanto, diziam muito: atentos, profundos, carregavam uma mistura rara de força e ternura. Monteiro, homem de poucas palavras mas de grande sensibilidade, reconheceu nela algo familiar e essencial. Não era apenas uma mulher bonita — era uma alma cúmplice, alguém com quem podia imaginar uma vida verdadeira.

O namoro começou devagar, como quem cultiva uma semente em terra seca. Não houve juras de amor nem grandes gestos. Havia respeito, cuidado, e sobretudo constância. Conversavam à porta do bar, entre risos tímidos e silêncios confortáveis. À medida que os dias passavam, Monteiro sentia que aquele vínculo crescia com raízes fundas, como as oliveiras da sua terra natal.

Casaram-se de forma simples, sem pompa nem alarde — como tudo o que Monteiro fazia. Mas com firmeza, com propósito. Carmem tornou-se sua companheira de todas as horas: no negócio, no lar, na criação dos filhos e na travessia dos muitos desafios que a vida ainda lhes traria. Trabalhavam lado a lado, tomavam decisões juntos, dividiam não só as tarefas, mas o espírito de luta e os valores que moldaram o lar que construíram.

Dessa união nasceram três filhos — um rapaz e duas raparigas — educados com os princípios que ambos consideravam fundamentais: a força do trabalho honesto, o valor da palavra dada, a importância da solidariedade e o dever de viver com dignidade, sem nunca esquecer as raízes. A casa era simples, como a infância de Monteiro, mas transbordava de amor, de exemplo e de presença.

A relação com Carmem, nascida de um encontro aparentemente casual, foi tudo menos acidental. Foi destino tecido em silêncio, fortalecido pelo tempo e sustentado por escolhas diárias. Para Monteiro, essa parceria foi uma das maiores conquistas da sua vida: ter ao seu lado uma mulher que partilhava os mesmos valores, que conhecia o peso das dificuldades e mesmo assim seguia ao seu lado com leveza.

Caminharam juntos até ao fim, como começaram: com serenidade, com coragem, e com verdade. E se a vida se mede em legados, Monteiro sabia que, com Carmem, tinha construído o maior de todos — uma história de amor firmada em respeito, trabalho e lealdade.

Capítulo IX – A Ida para a Curicica

Agora Sozinho, Sem Sócios

Depois de anos intensos em Rocha Miranda, dividindo o trabalho e os lucros com um sócio no botequim, Monteiro sentiu que era hora de seguir um novo caminho — desta vez, totalmente por conta própria. A experiência acumulada, a disciplina do dia a dia e o capital conquistado deram-lhe confiança para um passo maior. E assim, após vender a sua parte no negócio, que já valia um bom dinheiro, Monteiro decidiu investir num bairro ainda em expansão: Curicica.

Curicica, naquela altura, era uma zona periférica do Rio de Janeiro, pouco desenvolvida, mas promissora. A terra era mais acessível, as ruas ainda eram de barro em muitos trechos, e os vizinhos mal se conheciam. Mas Monteiro não via apenas o presente — ele enxergava o que o lugar podia vir a ser. Já possuía ali um terreno de valor comercial, adquirido com cautela anos antes, e agora decidira transformá-lo num empreendimento concreto.

Foi um dos primeiros a acreditar no bairro. Com os recursos da venda do botequim, iniciou a construção de quatro lojas no piso térreo e três apartamentos no andar superior. Ergueu tudo com rigor, acompanhando cada etapa, muitas vezes com as próprias mãos. A sua loja principal tinha vocação para padaria, mas, nos primeiros tempos, vendia de tudo: leite, sabão, farinha, cigarros, fósforos, refrigerantes, doces, carvão — qualquer coisa que pudesse suprir as necessidades da população local, ainda pequena, mas crescente.

Ali, Monteiro não podia contar com o movimento fácil dos bairros mais consolidados. O começo foi duro. A clientela era escassa, o comércio local mal engatinhava, e o dinheiro circulava pouco. Mas ele conhecia bem o valor da persistência. Não se podia perder nenhuma oportunidade. Atendia pessoalmente, limpava o balcão, fazia as entregas, administrava as contas e ainda encontrava tempo para continuar a expandir o que havia começado.

Com o passar dos anos, o bairro cresceu. As ruas começaram a ganhar asfalto, novas casas surgiram, famílias chegaram de outras regiões. E com esse crescimento, veio a consolidação dos negócios de Monteiro. A loja tornou-se uma padaria de referência local, e os imóveis passaram a garantir uma renda estável. Investiu na construção de mais propriedades, sempre com o mesmo cuidado e a mesma ética de trabalho.

A sua rotina era marcada pelo labor diário. Não conhecia feriados, não tirava férias. Os dias de descanso eram preenchidos com pequenas reformas, manutenção de telhados, pintura de paredes ou consertos nas instalações elétricas dos seus imóveis. O lazer estava no fazer — era um homem de projeto em projeto, cuja paixão talvez fosse justamente essa: dar forma às ideias, transformar espaço vazio em algo útil e durável.

Monteiro nunca foi de grandes discursos. Mas a Curicica de hoje ainda carrega as marcas da sua visão e da sua coragem. Naquele bairro que ele ajudou a construir, tijolo a tijolo, ergueu-se também o reflexo da sua trajetória: um caminho de esforço constante, construído não com pressa, mas com firmeza — e sempre, sempre com as mãos calejadas e o espírito em movimento.

Capítulo X – Nunca Ganhei Dinheiro na Vida

O que Tenho Foi por Não Ter Tempo de o Gastar

Monteiro costumava dizer, com um sorriso irônico e sincero:
“Nunca ganhei dinheiro na vida. O que tenho foi por não ter tempo de o gastar.”
Essa frase, aparentemente simples, resumia uma filosofia de vida profunda, forjada em décadas de trabalho duro, disciplina férrea e uma rara abnegação pessoal.

Diferente de muitos, nunca se deixou seduzir por prazeres convencionais. Não era homem de hobbies. Não ouvia música, não lia romances, não fazia viagens de lazer. Se o fizesse, talvez até se sentisse culpado — como se estivesse a desperdiçar tempo. Para ele, o verdadeiro prazer estava no que era palpável, mensurável, concreto. Cada parede que se erguia, cada reparo concluído, cada imóvel recuperado ou alugada era uma vitória silenciosa. Era ali, no som de uma furadeira ou no cheiro de tinta fresca, que encontrava o que muitos chamariam de repouso.

Monteiro vivia para o fazer. Descansava trabalhando, e se havia algo que o inquietava era a ideia de não ter uma tarefa à mão. A rotina era simples e austera: acordava cedo, cuidava dos imóveis, verificava instalações, atendia inquilinos, negociava com fornecedores, martelava, pintava, reformava. Não havia luxos nem exageros. O tempo livre, quando surgia, era logo preenchido por mais uma ideia, mais um plano, mais um conserto. O silêncio o incomodava menos que a inércia.

Se havia uma paixão declarada em sua vida, era esta: a realização constante. Não a ostentação, não os ganhos fáceis, mas a construção lenta e durável de algo com as próprias mãos. O progresso era silencioso, invisível a muitos, mas ele sabia o valor de cada reboco, de cada ferragem comprada a prestações, de cada imóvel erguido com sacrifício. O fruto do seu esforço estava por toda parte, ainda que ele nunca fizesse questão de mostrar. Era discreto até nos feitos.

Ao longo dos anos, o que se acumulou não foi riqueza exibida, mas estabilidade construída, uma rede de segurança feita de tijolo e persistência. Monteiro não viveu para gastar — viveu para deixar algo firme atrás de si. E talvez essa tenha sido a sua maior forma de generosidade: uma vida inteira de entrega, sem excessos, sem desvios, guiada apenas pelo desejo de cumprir com dignidade o seu caminho até o fim.

O verdadeiro descanso, para ele, não era parar. Era olhar para trás e saber que tudo o que fez teve sentido — porque foi feito com honestidade, com esforço, e com a convicção de que o tempo bem vivido não é aquele que se gasta, mas o que se constrói.

Capítulo XI – O Passeio Anual

O Dia do Descanso

Em meio a uma vida moldada pela disciplina e pelo trabalho incansável, havia uma única exceção, um ritual sagrado que Monteiro jamais falhava: o passeio do dia 1º de janeiro. Era o seu único dia de descanso ao longo do ano — não por obrigação, mas por escolha. Nesse dia, ele trocava os cestos de pão, os balcões dos negócios, as ferramentas de obra e manutenção, por algo muito mais precioso: o reencontro com o irmão Joaquim, que morava no bairro de Ricardo de Albuquerque.

O trajeto, de cerca de trinta quilómetros, não era apenas uma viagem física. Era, sobretudo, um regresso ao coração. Um mergulho nas raízes, na memória partilhada, nos laços que resistiam ao tempo e à distância, mesmo em solo estrangeiro. 

A chegada era sempre familiar. Joaquim, homem simples como ele, recebia-o com um sorriso de irmão velho — cansado, mas firme. A cunhada já punha a água a ferver para o café, enquanto os sobrinhos corriam pela casa, enchendo o espaço de vida. Em pouco mais de uma hora, falavam o que o tempo não deixava dizer no resto do ano. Era ali, naquele intervalo sagrado, que o tempo desacelerava.

Falavam de tudo: da vida, dos filhos, das saudades da terra natal, das novidades do bairro, das dores do corpo, dos negócios, e das pequenas alegrias que só têm valor para quem constrói a vida dia após dia. Era um momento sem vaidade — apenas presença e verdade. E isso bastava.

Depois, sem despedidas longas ou cerimónias, Monteiro voltava para casa. Não havia nostalgia, apenas reabastecimento emocional. Voltava com o ânimo renovado, com as energias realinhadas, pronto para mais um ano de luta e persistência.

Esse ritual simples — uma visita anual — dizia muito sobre quem era Monteiro. Alguém que, mesmo mergulhado na labuta diária, nunca se afastou dos seus afetos. Alguém que, embora visse valor no trabalho, nunca perdeu o sentido das suas origens, dos seus vínculos, da família.

Nos outros 364 dias do ano, Monteiro seguia seu ritmo habitual. Se tinha um tempo “livre”, era apenas uma pausa ativa. Logo estava a construir, reparar, planejar ou acompanhar alguma obra. Não contratava à distância. Participava. Subia andaimes, misturava cimento, discutia ideias com pedreiros, pintava paredes. Não o fazia por economia, mas porque ali se encontrava com ele mesmo — no fazer, no transformar, no erguer.

A vida deu-lhe alegrias discretas, frutos do suor, da persistência e de escolhas firmes. E aquele único passeio anual, simples e silencioso, talvez tenha sido a forma mais pura de descanso que ele conheceu: estar com quem amava, sentir-se em casa, e saber que mesmo longe da terra natal, nunca esteve verdadeiramente só.

Capítulo XII – As Alegrias e Contratempos

A vida, com sua sabedoria imprevisível, presenteou Monteiro com alegrias intensas e contratempos profundos — como que num eterno vaivém entre luz e sombra. Entre os momentos luminosos, um destacou-se de forma especial: o nascimento da primeira neta. A chegada daquele pequeno ser, frágil e vibrante, representou uma nova esperança, um recomeço simbólico. Foi como se, naquele instante, toda a dureza do caminho percorrido tivesse valido a pena.

Monteiro, homem comedido nas palavras e com emoções sempre guardadas em silêncio, iluminava-se discretamente ao falar da menina. O brilho dos olhos, o sorriso que lhe escapava sem querer, o cuidado com os detalhes ao contar qualquer pequena conquista da neta — tudo revelava um amor puro, tranquilo, diferente daquele vivido como pai. Era a alegria de ver a vida se prolongar, agora sem a pressa e o peso da responsabilidade que o trabalho sempre impôs.

Contudo, a mesma vida que oferece sorrisos também impõe provas duras. E foi numa dessas curvas da existência que Monteiro enfrentou o que nenhum pai deveria enfrentar: a perda de uma filha. A notícia caiu como uma pedra no peito, abrindo uma ferida que nem o tempo — seu velho aliado — conseguiu fechar. Foi um golpe seco, calado, que não encontrou consolo em palavras, apenas em gestos contidos e no silêncio respeitado por quem o conhecia bem.

Mas Monteiro era feito de matéria rara. Forjado na labuta, soube sobreviver à dor sem se entregar à amargura. A mesma resiliência que o ajudou a vencer aa adversidades, a saudade e a diferença cultural em terra estrangeira, foi a que o sustentou naquele momento sombrio. Não fugiu da dor, mas também não deixou que ela o imobilizasse.

Nessa travessia emocional, encontrou conforto nos vínculos que construiu ao longo de décadas. Muitos dos seus antigos clientes, vizinhos e amigos acompanhavam-no desde os tempos do pão entregue de porta em porta. Eram homens e mulheres que sabiam quem ele era — não pelo que dizia, mas pelo que fazia. Relações forjadas na confiança, no respeito, na constância. Não eram simples frequentadores dos seus comércios: eram companheiros de estrada, testemunhas das suas batalhas e da sua humanidade.

Essas amizades discretas, feitas de cafés partilhados no balcão, conversas breves na calçada e silêncios compreendidos, tornaram-se pilares emocionais. E, nesse apoio mútuo, Monteiro encontrou mais uma razão para seguir em frente.

A vida, afinal, nunca lhe foi fácil — mas sempre foi digna. E mesmo diante das perdas, ele seguiu com a mesma compostura que o definiu desde os primeiros dias: cabeça erguida, passos firmes e um olhar sereno, como quem sabe que a dor também faz parte da colheita de quem planta com verdade.

Capítulo XIII – Uma Trajetória de Cubos / Mangualde à Curicica / Rio de Janeiro

De Cubos, freguesia modesta do concelho de Mangualde, até Curicica, bairro em expansão na zona oeste do Rio de Janeiro, a trajetória de Monteiro é uma ponte entre dois mundos, construída não apenas com tijolos, mas com valores — os mesmos que levou da terra natal e plantou, com firmeza, no solo estrangeiro.

Na Curicica, onde fincou morada definitiva, Monteiro não foi apenas mais um comerciante de bairro. Foi um ponto de referência — daqueles que não se anunciam com placas, mas que todos conhecem. Era o homem do pão, das lojas, do conselho sensato, da palavra medida. E, sobretudo, era o vizinho em quem se podia confiar.

No seu pequeno comércio, os clientes não vinham apenas para comprar. Vinham para conversar, ouvir e ser ouvidos. Havia sempre tempo para um “como vai?”, para recordar histórias de outros tempos, para rir de uma piada contada mil vezes e ainda assim divertida. A sua loja, simples por fora, era por dentro um verdadeiro centro de convivência. Era ali que o cotidiano ganhava afeto, e que o respeito se renovava a cada encontro.

Esse ambiente caloroso era alimentado pelo exemplo de Monteiro. Homem de palavra, que não prometia além do que podia cumprir. Trabalhador incansável, mas humilde. Nunca tratou ninguém com altivez. Mesmo quando alcançou estabilidade, nunca perdeu o olhar direto, o aperto de mão firme e o gesto de igualdade. Por isso, mesmo após afastar-se da lida diária, muitos daqueles antigos fregueses — agora amigos — continuam a procurá-lo. Seja para partilhar uma memória, tomar um café ou apenas para perguntar: “E aí, seu Monteiro, como está o senhor?”

Esses reencontros casuais, essas visitas espontâneas e afetuosas, são hoje o que lhe dá mais prazer. Porque cada uma traz consigo a confirmação de que sua vida foi mais do que trabalho — foi presença, vínculo, memória viva de um tempo em que a palavra ainda valia mais que contrato.

Monteiro, o homem que saiu de uma aldeia com tamancos nos pés e chegou ao Brasil com a mala cheia de esperança e coragem, construiu não apenas imóveis e negócios — construiu uma vida de valor. Fez do esforço uma rotina, da honestidade um lema, e da simplicidade um modo de ser.

Hoje, olhando para trás, não contabiliza apenas bens ou feitos. Contabiliza vidas tocadas, amizades preservadas e respeito conquistado. Da pequena aldeia de  Cubos à movimentada Curicica, a sua travessia não foi apenas geográfica — foi humana. Uma caminhada feita de sacrifício, mas também de sentido.

Capítulo XIV – Como Definir Saudade

Uma Palavra Tão Portuguesa

Monteiro era, acima de tudo, um homem de raízes. Embora tivesse deixado Portugal aos 25 anos, em busca de horizontes mais largos e oportunidades que a terra natal já não lhe oferecia, nunca se desvinculou emocionalmente da Beira Alta — região que o viu crescer e moldou o seu caráter com a dureza do inverno, a nobreza do trabalho e a doçura simples dos afetos verdadeiros.

A sua aldeia, Cubos, no concelho de Mangualde, vivia nele como uma presença constante, mesmo quando os anos e os mares o empurraram para o calor tropical do Rio de Janeiro. A saudade, palavra que os portugueses pronunciam com um peso que o resto do mundo só tenta entender, era em Monteiro um modo de ser. Não era tristeza. Era fidelidade. Era presença invisível.

Nas conversas com amigos e fregueses, o tema voltava sempre: a terra natal, os campos dourados de verão, o cheiro da terra molhada depois da chuva, o frio que queimava os ossos mas unia as famílias. Falava com brilho nos olhos da vida rural, das festas populares, dos sinos das igrejas ao entardecer, das vindimas, das castanhas assadas no outono, dos caminhos de terra batida que levavam à casa dos avós. Portugal não estava distante — estava dentro.

Uma das tradições que fez questão de manter, mesmo em solo estrangeiro, foi a da matança do porco. A seu modo, e com os recursos possíveis, reproduziu os rituais que uniam famílias e vizinhos numa jornada de trabalho, partilha e celebração. Não se tratava apenas de alimento: era símbolo de união, de continuidade, de respeito pelos que vieram antes. Era, também, uma aula viva para os filhos e netos — uma ponte que ligava o passado ao presente, a aldeia ao mundo novo.

A comida era outra forma de manter viva a sua identidade. Monteiro descrevia com paixão os sabores da infância: broa de milho estaladiça, papas de milho com feijão, enchidos artesanais, arroz de forno e o inconfundível cabrito assado em dias de festa. Quando possível, tentava recriar esses pratos ou, ao menos, transmitia suas receitas com tanto detalhe que era como se, por instantes, a mesa brasileira se transformasse numa mesa portuguesa. Porque para ele, comer era lembrar. E lembrar era resistir ao apagamento das origens.

Católico de fé silenciosa e homem de feitio reservado, Monteiro nunca precisou de gestos grandiosos para mostrar os seus valores. Vivia segundo um princípio que repetia com serenidade:

“Fazer aos outros aquilo que gostaria que lhe fizessem.”

Essa ética simples e poderosa guiou os seus passos. Era visível na forma como tratava os clientes, como criava os filhos, como cumpria acordos, como respeitava todos — sem distinção de classe ou origem. O seu era um ensinamento que não vinha de discursos, mas do exemplo diário e discreto, da firmeza da palavra dada e da constância no agir.

Mesmo com a distância, mesmo com o tempo, Portugal nunca o deixou — e ele nunca deixou Portugal. Levava o país consigo na fala cantada da Beira, nos gestos, no modo de pensar, na forma de cozinhar, nas memórias que contava e nas lições que deixava. Era um emigrante, sim, mas nunca um exilado. Era um homem que soube adaptar-se sem se perder. Que construiu um futuro sólido sem esquecer de onde vinha.

E talvez aí esteja a definição mais verdadeira da saudade:
Não como ausência, mas como presença contínua de algo que nos formou.
Monteiro foi, até ao fim, um homem inteiro — com um pé na terra onde nasceu, e outro na terra que escolheu amar.


Capítulo XV – Nos Dias de Hoje

Aos 77 anos, Monteiro vive um tempo mais sereno, onde o relógio já não dita urgências, mas também não encontra nele espaço para a ociosidade. O corpo, é certo, já não acompanha com a mesma velocidade de antes — mas a mente permanece desperta, atenta, inquieta como sempre foi. Se o ritmo desacelerou, a essência permanece: Monteiro continua a ser um homem de ação, de propósitos, de gestos. Aquele que nunca soube apenas existir — sempre quis construir, contribuir, deixar algo feito.

Hoje, dedica-se a pequenos prazeres e rotinas simples, que para ele nunca foram banais: uma conversa demorada com um amigo antigo, uma tarefa doméstica executada com paciência, um passeio breve pela vizinhança apenas para sentir o vento no rosto. Nessas pausas ativas, entre o silêncio e o movimento, há também espaço para aquilo que o tempo não apaga: a memória.

Foi com esse espírito — de reencontro e contemplação — que, após quase meio século, Monteiro regressou finalmente à sua amada Beira Alta. A viagem a Portugal não foi apenas física. Foi também emocional, quase espiritual. Ao pisar novamente os caminhos de Cubos, a aldeia que o viu nascer, foi como se se abrisse uma porta do tempo: os cheiros, as cores, os sons — tudo parecia diferente, e ainda assim familiar.

O país que havia deixado em busca de futuro era agora outro: moderno, eficiente, confortável, repleto de tecnologia e facilidades que, nos tempos da sua juventude, eram sonhos distantes. Portugal havia-se transformado, e com ele, as pessoas, as aldeias, os modos de vida. Ainda assim, a essência de certos lugares — e de certas emoções — resistia ao tempo.

Monteiro emocionou-se, mas não se iludiu. Reconhece com clareza que a sua vida verdadeira foi construída no Brasil. Foi em solo brasileiro que cresceu como homem, ergueu os seus negócios, criou os filhos, viveu as maiores dores e colheu as mais profundas alegrias. Foi ali, entre sacos de farinha e blocos de cimento, que moldou não apenas património, mas caráter. Por isso, sem hesitação, diz com orgulho:

"A minha terra é o Brasil — a terra que me deu tudo."

Ainda assim, o amor por Portugal continua vivo. É um sentimento profundo, feito de silêncio e lembrança, de tradições antigas e saudades que não pedem explicação. O cheiro da broa de milho, o som das concertinas nas festas da aldeia, o gosto das papas de feijão ou do cabrito assado — são todos fragmentos de uma identidade que, mesmo à distância, jamais se apagou. Monteiro traz Portugal na fala, no gesto e na alma.

Mas também olha com lucidez para o Brasil atual. Agradece com sinceridade tudo o que recebeu — as oportunidades, o acolhimento, a chance de prosperar. Ao mesmo tempo, lamenta certas perdas do tempo presente: a paz que já não se encontra nas ruas, o distanciamento entre vizinhos, a insegurança que corrói o cotidiano e tira o brilho do que antes era simples e bom. Ainda assim, permanece fiel ao país que escolheu amar — não com romantismo, mas com gratidão consciente e madura.

Hoje, vendo os netos crescerem, sente que o esforço de uma vida inteira valeu a pena. Não foi fácil. Nenhuma das suas conquistas lhe caiu do céu. Tudo o que construiu foi à força de trabalho, de resiliência, de honestidade. Nunca precisou passar por cima de ninguém. Nunca traiu seus princípios. E por isso, quando olha para trás, Monteiro não encontra arrependimentos — apenas orgulho.

Orgulho pelo caminho percorrido. Pela família criada. Pela memória honrada. E por ser, até hoje, um homem que, mesmo no silêncio dos dias mais lentos, continua a deixar marcas firmes por onde passa.

Capítulo XVI – Reflexões

A mensagem que Monteiro deixa — tanto para quem o lê quanto para a família que lhe sucede — é de uma simplicidade desarmante e de uma força que atravessa o tempo:
“Façam o melhor por si e pelos outros.”

Depois de uma vida longa, feita de sacrifícios, jornadas silenciosas e conquistas à custa do próprio suor, Monteiro compreendeu que o verdadeiro sentido da existência não se mede por títulos, riqueza ou reconhecimento fácil. O que realmente importa é o caráter que se constrói no dia a dia, a dignidade com que se enfrenta o trabalho e a generosidade de se estender a mão — mesmo quando se tem pouco a oferecer.

Ao longo dos anos, ensinou mais com atitudes do que com discursos. Foi um homem de silêncio firme e presença constante. Nunca se rendeu ao cansaço, nunca fugiu do desafio. Enfrentou o desconhecido com coragem e moldou o seu destino com os valores simples e sólidos herdados da infância na sua aldeia natal, Cubos, no coração da Beira Alta. Entre todos esses valores, um sempre se destacou como bússola orientadora:
o valor do trabalho.

Para Monteiro, o trabalho nunca foi apenas meio de subsistência. Era expressão de respeito por si e pelos outros. Era uma forma de oração — não dita, mas vivida com o corpo, com as mãos e com alma inteira.
Gostava de repetir, com a naturalidade de quem crê sem precisar provar:

“O trabalho é a melhor oração.”

Essa frase, simples à primeira vista, revela toda a sua filosofia de vida: uma fé prática, enraizada na ação e não no alarde. A fé de quem acredita no fazer, no cumprir, no estar presente, dia após dia, mesmo quando ninguém vê.

Hoje, a sua história permanece como testemunho. Um testemunho vivo de que a integridade resiste ao tempo, de que os valores familiares e culturais se mantêm mesmo quando transplantados para terras distantes, e de que uma vida feita com retidão é, em si, um legado inapagável.

A quem vier depois dele — filhos, netos, leitores — Monteiro deixa um mapa invisível, mas profundamente claro.
Um mapa feito não de rotas ou coordenadas, mas de valores:

Caminhem com honra.
Trabalhem com amor.
Sigam com justiça.
E, sobretudo, cuidem uns dos outros.

Porque, no fim das contas, é isso que faz a vida valer a pena. Não o que se possui, mas o que se deixa nos corações dos outros.

In Memoriam

Recolha e adaptação: Chá com Memórias