O Contador de Sabores e Memórias: A Vida Singular de Sr. Marcelino
O Contador de Sabores e Memórias: A Vida Singular de Sr. Marcelino
Aos 84 anos, Sr. Marcelino Carvalho é daqueles homens cuja voz parece ter o poder de parar o tempo. Natural de Trás-os-Montes, mas forjado entre os aromas tropicais de Angola, leva consigo o olhar sereno de quem já viveu várias vidas numa só. Hoje reside num lar em Vila Nova de Gaia, mas as suas histórias, contadas com gosto e detalhe, fazem todos viajarem para lugares distantes — sejam as savanas africanas ou os tempos agitados da sua famosa tasca.
Marcelino emigrou jovem para Angola, levado pela promessa de um novo começo. Trabalhou em fazendas de café, aprendeu a caçar, a cozinhar pratos típicos com ingredientes que mal sabia pronunciar. Apaixonou-se por aquela terra quente, pelas gentes afáveis e pelas tardes longas em que o tempo parecia escorrer mais devagar. “Foi lá que me tornei homem”, costuma dizer, com um brilho nos olhos que nenhuma fotografia conseguiria captar.
Mas os tempos mudaram, e com a chegada da guerra colonial, regressou a Portugal. Trouxe pouco na bagagem: algumas roupas, um rádio de pilhas, uma pequena estátua de madeira entalhada por um amigo angolano… e muitas histórias. Em terras portuguesas, reinventou-se mais uma vez. Instalou-se nos arredores do Porto e abriu a Tasca do Marcelino, um modesto espaço de comes e bebes, que rapidamente se transformou num ponto de encontro da vizinhança.
Ali, entre petiscos caseiros e copos de vinho, Sr. Marcelino servia mais do que comida: oferecia lembranças. Contava episódios da sua juventude em Angola, descrevia cheiros de mercados, sons de tambores, e até os silêncios da savana à noite. Cada prato vinha com uma história. As bifanas tinham “gosto de saudade”; o arroz malandro, “cheiro de terra vermelha molhada”. Os clientes vinham não só pela comida — embora deliciosa — mas pelo ambiente único que ele criava com a sua voz pausada, o sorriso fácil e uma sabedoria que parecia ter nascido com ele.
Com o tempo, as pernas foram enfraquecendo e a tasca acabou por fechar. Hoje, no lar onde reside, Marcelino já não cozinha, mas continua a servir histórias como quem oferece sobremesas: devagar, com doçura. Os cuidadores e residentes reúnem-se ao seu redor como outrora os clientes da tasca. Alguns ouvem com curiosidade, outros fecham os olhos e viajam nas palavras.
Quando perguntam se sente saudades da antiga vida, ele responde com a calma de quem já fez as pazes com o tempo:
“Tenho saudades, sim. Mas saudade boa, da que aquece o peito. A vida não é feita só de lugares onde estivemos… mas de tudo o que deixámos neles.”
Sr. Marcelino ensina que a memória é um prato que nunca esfria. Que contar histórias é uma forma de continuar presente — mesmo quando o tempo já se vai fazendo ausente. E assim, entre goles de chá e longas conversas, ele continua a alimentar quem o rodeia — agora com sabores da alma.
Por Albino Monteiro
