Os Sabores da Vida de Dona Joana

 

Os Sabores da Vida de Dona Joana

Aos 74 anos, Dona Joana Fernandes é conhecida por muito mais do que seus doces — é lembrada por ser uma alma doce também. Nascida e criada na vila de São Bartolomeu do Mar, no norte de Portugal, cresceu entre os aromas do forno da avó e os segredos das receitas escritas à mão em cadernos amarelecidos pelo tempo. Mas foi só após a aposentadoria que Dona Joana se permitiu transformar essa paixão antiga numa verdadeira arte de viver.

Durante décadas, trabalhou como auxiliar de educação numa escola primária local. Entre risos de crianças, folhas de atividades e reuniões de pais, guardava um sonho simples: abrir um pequeno negócio de doces caseiros. “Um dia, ainda faço das minhas mãos o meu sustento e da minha cozinha o meu ateliê”, dizia, entre um biscoito amanteigado e um sonho recheado nos lanches de domingo.

Foi depois da partida do marido, o senhor Aníbal — com quem partilhou uma vida inteira de companheirismo e serenidade — que Dona Joana resolveu recomeçar. Com o apoio dos filhos e netos, transformou a antiga garagem da casa numa cozinha acolhedora, cheia de potes de vidro, panos coloridos e um forno que nunca esfria. Nasceu ali a Doçuras da Joana, uma pequena produção artesanal que conquistou o bairro e, mais tarde, feiras e mercados da região.

As mãos de Dona Joana conhecem o ponto exato do doce de abóbora com noz, da marmelada firme e brilhante, das broas de milho e dos bolinhos de amêndoa. Cada receita tem uma história. A compota de figo vem da infância, colhida do quintal da mãe. Os suspiros cor-de-rosa eram os preferidos da neta mais nova. O pão de ló? Um segredo passado por gerações, que ela diz só revelar “a quem souber ouvir com o coração”.

Os vizinhos adoram visitá-la. A porta está sempre entreaberta, com cheiro de canela no ar e música portuguesa suave tocando ao fundo. Quem passa por ali raramente sai de mãos vazias — ou de alma vazia. “Aqui não se vende só doce, vende-se afeto”, costuma dizer com um brilho nos olhos que nenhum tempo apaga.

Hoje, Dona Joana não pretende expandir, nem modernizar. Prefere fazer poucos doces, mas com a calma e a dedicação de quem sabe que o tempo tem outro sabor quando é vivido com amor. Seu maior orgulho é ver os netos ajudando aos sábados, etiquetando potes e decorando saquinhos com fitas. “Assim eles aprendem que paciência e carinho são ingredientes que não se compram — colocam-se.”

Com uma colher de pau numa mão e um pano de crochê na outra, Dona Joana transformou a própria vida numa receita simples e perfeita: tradição, ternura e açúcar na medida certa.

Recolha e adaptação: Albino Monteiro