O Som Inesquecível de Júlio Duarte

 

O Som Inesquecível de Júlio Duarte

Aos 82 anos, Júlio Duarte é uma presença serena e constante numa pequena praça arborizada no centro da cidade. Todas as manhãs, pontualmente às nove, ele retira com cuidado o seu velho violino de uma caixa de madeira gasta pelo tempo e começa a tocar. Os dedos, já enrugados, deslizam com delicadeza sobre as cordas, enquanto os olhos fechados parecem buscar uma melodia que vem de muito longe — talvez de dentro da alma.

Natural de Viseu, Júlio fez da música a sua vida inteira. Desde menino, encantava-se com os sons que ouvia ao longe, nas feiras, nas igrejas, nos rádios antigos. Aos doze, ganhou de um tio o seu primeiro violino. Nunca mais o largou. Estudou com afinco, integrou orquestras, percorreu palcos pelo país e pelo mundo. Mas, entre todas as viagens e aplausos, havia algo — ou melhor, alguém — que tornava tudo mais especial: a sua esposa, Helena.

Helena era a sua plateia favorita. Sentava-se sempre na primeira fila, olhos brilhantes, mãos cruzadas sobre o colo, absorvendo cada nota. Acompanhava-o para onde fosse, sem se cansar. Júlio dizia que sua música era mais afinada quando ela o escutava. "Tocava melhor porque era para ela", confessa com um sorriso melancólico.

Hoje, Helena já não está. Partiu há cinco invernos, silenciosamente, como uma nota que se desfaz no ar. Não tiveram filhos, e desde então, o mundo de Júlio ficou mais silencioso, mais vazio. Mas não sem som. Porque ele insiste em tocar, como quem conversa com o tempo, como quem procura, entre as notas, um eco da voz amada.

Na praça, os frequentadores habituais já se habituaram a ele. Crianças param para ouvi-lo, casais sentam-se nos bancos ao som das valsas suaves, e até os pássaros parecem ajustar seu canto ao compasso do velho violino. Mas há mais do que beleza na sua música — há consolo, lembrança, esperança. Cada melodia que Júlio entoa carrega fragmentos de uma vida inteira dedicada à arte e ao amor.

"A vida é uma sucessão de perdas", diz ele com doçura resignada. "Mas se Deus me conservar a audição até o fim, já me basta. Porque é por ela que ainda ouço o mundo. E enquanto houver música, há vida."

O violino de Júlio não é apenas um instrumento: é uma ponte entre o passado e o presente, entre o que foi e o que ainda se sente. Não há plateias lotadas nem cortinas vermelhas, mas há emoção — e isso, para Júlio, vale mais do que qualquer aplauso.

Assim, naquela praça simples, um homem e seu violino continuam a tocar a sinfonia da vida. E quem passa por ali, ainda que por acaso, sai um pouco diferente. Porque há músicas que não se ouvem apenas com os ouvidos, mas com o coração — e Júlio é mestre em tocá-las.

 Recolha e adaptação: Vasco Sampaio