As Histórias Silenciosas de Dona Celeste
As Histórias Silenciosas de Dona Celeste
Aos 82 anos, Dona Celeste é uma mulher de gestos delicados e olhar sereno, como se carregasse o tempo nas mãos. Vive sozinha numa casa antiga de pedra em Mondim de Basto, com janelas grandes que deixam entrar o sol e, por vezes, a saudade. Todas as manhãs, sem falta, senta-se à janela com o bastidor ao colo e borda. É ali, naquele recanto perfumado por alfazema e memórias, que costura os dias — ponto a ponto, linha a linha, como quem tenta segurar o passado com agulha firme e coração manso.
Celeste foi, durante muitos anos, a costureira da aldeia. Dizia-se que tinha mãos de fada: bordava lençóis de linho, toalhas de luto com rendas minuciosas e fazia os enxovais mais bonitos que alguma noiva podia desejar. A sua casa era um vaivém de vizinhas, risos e chá quente, onde se trocavam histórias enquanto os tecidos se transformavam em peças únicas. Com o marido, Joaquim, dividia os silêncios e os dias — ele cuidava da horta, assobiava enquanto regava as flores, e elogiava sempre os bordados com um sorriso tímido. Os filhos cresceram ali, entre agulhas e canteiros, e partiram depois em busca de futuros distantes, levando com eles um pedaço da casa, e muito do coração da mãe.
Há quase vinte anos, Joaquim partiu sem aviso, numa manhã fria de fevereiro. Desde então, Celeste ficou com os bordados e as recordações. Os filhos, embora presentes nos telefonemas e nas videochamadas aos domingos, estão longe — um no Luxemburgo, outro em Lisboa, e a filha mais nova no Brasil. Os netos só conhece em ecrãs ou quando aparecem, de longe em longe, nas férias grandes. Mas Celeste não reclama: aprendeu a conversar com o mundo através dos tecidos. Diz que cada bordado é uma carta disfarçada, uma oração muda, um retrato do que sente.
Na sua sala, há silêncio, mas também vida: uma máquina de costura antiga herdada da mãe, molduras com retratos desbotados, uma prateleira com novelos de linha organizados por cor e uma mesa de madeira onde repousa sempre uma chávena de chá. À primeira vista, quem passa pensa que ela vive só. Mas basta cruzar o umbral da sua porta para se perceber que Celeste está rodeada de presenças — as lembranças são suas companheiras mais fiéis. E os bordados que faz, pequenos milagres em ponto cheio, têm destino certo: são guardados com cuidado numa arca forrada a tecido florido, “para oferecer aos netos, quando vierem”.
Dona Celeste é daquelas mulheres que ensinam sem dar lições. Que nos mostram, com o silêncio e a persistência, que a vida continua mesmo quando já não é barulhenta. Que o amor não desaparece — apenas muda de forma. E que há laços mais fortes do que a distância: os que se cosem com paciência, fé e uma linha invisível chamada esperança.
Recolha e adaptação: Albino Monteiro
