As Palavras de José Morgado
As Palavras de José Morgado
Aos 73 anos, José Morgado é um daqueles homens que carrega nas rugas o mapa de uma vida rica em histórias. Natural de Seia, bem no coração da Serra da Estrela, cresceu entre as montanhas, os rebanhos de ovelhas e o cheiro forte da terra molhada. Foi ali, nesse cenário rústico e grandioso, que José descobriu as palavras — não como meros instrumentos, mas como sementes de memória e transformação.
Ainda em rapaz, escrevia bilhetes escondidos para os amigos, pequenos poemas para as raparigas da aldeia e crônicas sobre as rotinas do campo. Mas foi apenas após se aposentar como professor de Português que decidiu abraçar o ofício de escritor com toda a alma.
Todos os dias, mesmo com o frio da serra a bater-lhe nos ossos, José caminha até a antiga casa dos pais, agora transformada no seu refúgio literário. Lá, num pequeno quarto forrado de livros e cheiro de madeira antiga, senta-se diante da sua máquina de escrever Olivetti, companheira de décadas. Prefere o som das teclas mecânicas ao silêncio digital — diz que aquele “tac-tac” ritmado é como o trote de um cavalo velho: firme, lento, mas cheio de histórias para contar.
José não escreve para fama, nem para prémios. Escreve para não deixar desaparecer o que a memória insiste em guardar. Crônicas sobre a tosquia das ovelhas, contos sobre os pastores e lendas que ouviu à volta da lareira em noites de inverno, tudo vai ganhando forma nas páginas que ele empilha com cuidado.
Durante muito tempo, os filhos — já todos espalhados pelo país e por vidas citadinas — viam aquele hábito como uma teimosia do velho Morgado. Mas aos poucos, começaram a entender que o que ele fazia não era nostalgia, era preservação. E num gesto comovente, a neta mais nova, Inês, decidiu reunir os textos do avô e publicou um pequeno livro artesanal, intitulado "As Neves de Seia e Outras Verdades". O livro correu de mão em mão, e logo os vizinhos, amigos e até antigos alunos começaram a ler com encanto as palavras daquele senhor de voz calma e olhar de montanha.
Hoje, José Morgado tornou-se uma espécie de guardião das memórias da serra. Recebe visitantes curiosos — jovens estudantes, escritores iniciantes, até turistas — que escutam as suas histórias como quem ouve música antiga. Ele serve chá de ervas do quintal, oferece bolinhos feitos por dona Rosa, a vizinha de infância, e fala pausadamente, escolhendo bem cada palavra, como quem costura uma manta.
Com frequência, repete uma frase que virou quase seu lema:
"Enquanto alguém recordar, nada se perde de verdade."
E é exatamente isso que ele oferece: uma forma de recordar o que o tempo insiste em apagar.
Para muitos, José Morgado é apenas um velhote simpático de Seia. Mas para aqueles que o ouvem e leem, ele é um contador de histórias que borda com palavras a alma de um lugar. Um homem que provou que a escrita pode aquecer tanto quanto um cobertor de lã, e que a sabedoria se colhe como castanhas no outono: devagar, com respeito, e em boa companhia.
Recolha e adaptação: Albino Monteiro
