A Última Carta de Júlio Simões de Almeida

 

A Última Carta de Júlio Simões de Almeida

Aos 80 anos, Júlio Simões de Almeida é um homem de poucas palavras — mas de memórias profundas. Natural de Leiria, vive hoje numa casa simples, rodeada por figueiras e silêncio, onde o tempo parece ter abrandado só para lhe dar espaço para pensar. Com os cabelos brancos penteados com rigor e o olhar sempre voltado para longe, Júlio passa os dias entre livros, jornais antigos e pequenos reparos na oficina do quintal.

Foi numa tarde morna de primavera, ao remexer numa antiga arca de madeira no sótão, que encontrou a caixa. Uma caixa de papelão amarelada pelo tempo, atada com um cordel de linho. Dentro, dezenas de cartas — de amor, de amizade, de saudade. E, no fundo, uma carta nunca enviada. Era do irmão mais novo, António, escrita há mais de trinta anos.

Ler aquela caligrafia firme foi como ouvir uma voz esquecida. Júlio e António tinham-se afastado depois de uma discussão tola, que o orgulho transformou num abismo. Um desentendimento sobre terras, heranças e palavras ditas com raiva. Nunca mais se escreveram, nunca mais se viram. António emigrou para o Brasil e, segundo soube, nunca mais voltou.

Com as mãos tremendo e o coração apertado, Júlio tomou uma decisão que vinha adiando há décadas. Pegou numa folha de papel de linho, abriu o velho tinteiro herdado do pai e sentou-se à mesa da varanda. A sua caligrafia, já trémula pelo tempo e pela artrite, ia desenhando lentamente palavras guardadas num silêncio longo demais.

“Querido António,
Demorei uma vida a escrever-te. A verdade é que não sabia por onde começar. Talvez porque sempre achei que haveria tempo. Mas o tempo, meu irmão, é um artesão silencioso: desgasta, molda, mas também ensina...”

Durante dias, Júlio reescreveu a carta. Não sabia se a enviaria, nem mesmo se António ainda estava vivo. Mas escrever tornou-se uma forma de reencontro. Cada frase era um fio que religava memórias de infância, tardes de pesca no rio Lis, o som das gargalhadas ao partilhar o pão com marmelada da mãe.

A carta tornou-se um espelho — e um bálsamo. Nela, cabiam o arrependimento, a ternura e a esperança. Não era um pedido de perdão — era uma oferta de paz. Quando terminou, Júlio não dobrou logo o papel. Ficou a olhá-lo longamente, como quem contempla uma fotografia rara.

No fim da semana, vestiu o seu melhor casaco, foi à vila e perguntou pelo endereço antigo do irmão. O funcionário dos correios sorriu com gentileza, mas não prometeu nada. Júlio deixou a carta, selada com cuidado, e voltou para casa com um suspiro profundo.

Hoje, Júlio não sabe se a carta chegou. Mas isso já não importa tanto. O que importa é que ele a escreveu. Que teve coragem de desfazer, em palavras, o nó que o tempo apertara no peito.

Na sua mesinha de cabeceira, repousa agora apenas uma frase, escrita a lápis num papel dobrado:

“Às vezes, o perdão não precisa de resposta. Basta o gesto.”

Júlio Simões de Almeida segue os seus dias com mais leveza. Porque, no fim, não são apenas as cartas que viajam — são também os sentimentos que nunca chegam tarde demais.

 Recolha e adaptação: Albino Monteiro