Os Teclados Silenciosos de Sílvia Andrade
Os Teclados Silenciosos de Sílvia Andrade
Aos 84 anos, Sílvia Andrade não consegue esconder o espanto sempre que observa os dedos ligeiros dos netos a deslizar em ecrãs luminosos. Natural de Setúbal, foi durante décadas datilógrafa num pequeno escritório de contabilidade, onde cada letra batida numa Olivetti era uma nota musical num dia cheio de ritmo e concentração.
“Era outro tempo, minha filha… um tempo em que as palavras tinham peso, e cada correção era um esforço de tinta, papel e paciência”, conta ela, com um misto de orgulho e melancolia. Sílvia começou a trabalhar aos 17 anos, após concluir o curso de datilografia no Liceu Feminino. Com o cabelo bem preso num coque e a saia sempre passada a rigor, ela enfrentava longas jornadas a redigir cartas, contratos e relatórios, sempre com a postura impecável e os olhos atentos à pontuação.
Havia um certo silêncio sagrado no escritório, apenas interrompido pelo “tac-tac-tac” das teclas e pelo tilintar da campainha da máquina a anunciar o fim de linha. “Era quase como uma dança. Cada documento era feito com cuidado, cada vírgula pensada. Hoje… hoje tudo é automático, impessoal. Um botão e já está.”
Reformou-se aos 60, quando os computadores começaram a substituir as máquinas de escrever. Tentou aprender, chegou a frequentar um curso de informática para seniores, mas não havia ali a mesma alma. “O ecrã não cheira a papel, não tem o peso de uma folha bem datilografada. E aqueles barulhos? Tudo calado agora… até os teclados já nem fazem som.”
Sílvia vive sozinha num pequeno apartamento, rodeada de recordações. No canto da sala, a sua velha máquina de escrever repousa como uma relíquia, coberta com um pano de renda que ela mesma fez. De vez em quando, tira-a do descanso e escreve pequenas cartas que nunca envia, só para sentir o toque conhecido das teclas e ouvir, ainda que por breves instantes, a música do passado.
Os netos, habituados à rapidez do mundo digital, olham-na com ternura e surpresa. “Avó, porque não escreves no tablet?” — ao que ela responde com um sorriso irónico: “Porque os sonhos não cabem em ecrãs frios. E este mundo… este mundo moderno é um devorador de sonhos. Engole tudo com pressa: palavras, emoções, memórias.”
Ainda assim, Sílvia não se amargura. Tem nas mãos a firmeza de quem resistiu ao tempo, e no olhar, uma chama de contemplação. Conta histórias do tempo em que os erros se corrigiam com fita branca e paciência, e as pessoas esperavam dias por uma carta – mas sabiam que, quando chegasse, teria o toque humano de alguém que se importou em escrevê-la bem.
Hoje, Sílvia não tem atelier, nem descendência no ofício. Mas deixou outro legado: o valor da atenção, da lentidão e da palavra escrita com intenção. E na sua varanda, entre os vasos de manjerico e as fotografias amareladas, repete baixinho para si mesma: “Nem tudo se apaga com o tempo. Algumas palavras ficam, gravadas na alma como numa folha de papel bom.”
Recolha e adaptação: Viviane Cristina
