O Sonho Guardado de Idalina de Sousa
O Sonho Guardado de Idalina de Sousa
Aos 78 anos, Dona Idalina de Sousa está prestes a realizar o que para muitos seria apenas uma pequena viagem. Mas para ela, é muito mais do que isso: é o cumprir de um sonho guardado por décadas. Natural do Minho, mulher de fala suave e mãos calejadas pelo tempo, Idalina sempre foi daquelas pessoas que colocam os outros à frente de si. Cuidou dos pais, dos irmãos, dos sobrinhos, dos vizinhos, das hortas, dos animais e, claro, da casa — que manteve como um santuário de ordem e aconchego.
Nunca conheceu o mar, nunca subiu num avião, e sequer andou de comboio. “A minha vida foi de ficar”, diz com um sorriso que não esconde o cansaço, mas também revela gratidão. A sua juventude passou entre panelas ao lume e lavadouros comunitários, e a velhice, entre rezas e pequenos bordados que ainda faz com delicadeza.
Mas agora, aos 78 anos, algo dentro dela despertou. Uma vontade antiga, quase esquecida, reacendeu-se com força: visitar Fátima. “Quero ir agradecer à Virgem”, diz com uma emoção serena, “por tudo o que tive... e até pelo que não tive. Porque tudo fez parte do caminho.”
A preparação para a viagem, de pouco mais de 400 quilómetros, tornou-se quase um ritual sagrado. Durante dias, Dona Idalina deixou a mala aberta no quarto, sobre a cama. Não porque tivesse muitas roupas para levar, mas porque ali, naquela mala, ia também guardar memórias, esperanças, e até uma pontinha de saudade. Dobrou cuidadosamente uma mantilha preta, separou uma blusa branca para o dia da missa, e uma fotografia antiga dos pais — “Para me acompanharem”, sussurrou.
As vizinhas, que já a conhecem desde sempre, ajudaram como puderam: uma emprestou um casaco mais moderno, outra comprou-lhe um terço novo, e a mais nova ofereceu-lhe uma pequena almofada para o caminho. “É uma rainha que vai a caminho do seu palácio”, dizia uma delas, entre risos e lágrimas.
Na véspera da partida, Idalina sentou-se junto à janela de sua casa, com vista para os campos verdes do Minho. Respirou fundo e disse, mais para si do que para os outros: “Setenta e oito anos, e só agora vou sair do meu lugar... Mas nunca é tarde quando se vai com fé.”
Chegar a Fátima foi como entrar num sonho. O santuário, com sua paz branca e silêncio reverente, acolheu Dona Idalina com o mesmo carinho com que ela acolheu a vida. Caminhou devagarinho até à Capelinha das Aparições, ajoelhou-se com esforço, e ficou ali por longos minutos, sem pedir nada. Apenas a agradecer.
Hoje, de regresso a casa, guarda um ramo de oliveira benzido, um coração leve e uma alegria difícil de descrever. A mala já está vazia, mas o coração — esse — voltou cheio.
Dona Idalina ensina que nunca é tarde para sonhar, e que mesmo os caminhos curtos podem levar-nos muito longe. Que viver é cuidar, mas também saber agradecer. Uma mulher simples que transformou a sua primeira viagem na mais bonita de todas — aquela que nasce da fé e é guiada pela gratidão.
Recolha e adaptação: Albino Monteiro
