O Código da Feira: Memórias de Luís Moreira
O Código da Feira: Memórias de Luís Moreira
Aos 79 anos, Luís Moreira ainda acorda cedo aos domingos, não porque precise, mas porque o cheiro de fruta fresca e o murmúrio das barracas montadas vivem no seu corpo como um hábito entranhado pelo tempo. Feirante desde rapaz, Luís cresceu entre bancas, pregões e sacos de batatas. E tudo começou graças ao vizinho Sr. Inácio, homem de fala mansa e olhos vivos, que lhe estendeu a mão quando ainda era um jovem curioso e inquieto.
“Foi ele quem me ensinou tudo. A montar a banca, a escolher o tomate que brilha, a não confiar no preço do limão que parece barato demais.” — conta Luís, enquanto alisa com cuidado um pano de riscas que cobre a velha banca agora aposentada no seu quintal.
Mas o que mais marcou Luís foram os códigos. Sr. Inácio não colocava preço nas mercadorias. Em vez disso, usava letras — um código que chamava de PUTANHEIRO. Cada letra correspondia a um número: P=1, U=2, T=3, A=4, N=5, H=6, E=7, I=8, R=9, O=0. Assim, um cacho de bananas podia ter uma etiqueta com as letras “PTR”, o que, na verdade, significava 139 escudos. O segredo era não revelar o valor de imediato. “A gente dizia 150, e depois ia marralhando devagar, até chegar no preço justo. Nunca abaixo dos 139, claro. Era jogo, era dança.”
Luís aprendeu a arte de ler o cliente no primeiro olhar. Sabia quem vinha só espreitar, quem tinha pressa, e quem vinha pronto para pechinchar. Tinha um dom raro: falava com os olhos e com as mãos, num equilíbrio entre simpatia e astúcia. “Ser feirante não é vender, é conversar. É saber medir o silêncio do freguês.” — repete sempre, como se fosse um ensinamento sagrado.
Com o passar dos anos, as feiras mudaram. Vieram os talões com preços marcados, os terminais de multibanco, a pressa urbana. Luís resistiu enquanto pôde, mas quando se reformou aos 67, fê-lo com a dignidade de quem sabia que deixou uma marca. Guardou o avental listrado, o chapéu de palha e, claro, a tabela codificada, que hoje está emoldurada na parede da cozinha, ao lado de uma fotografia a preto e branco da sua primeira banca, em Almada.
Agora, na varanda onde cultiva coentros e conversa com os pássaros, Luís passa as tardes a recordar histórias da feira. Os netos ouvem entre risos, sem entender muito bem aquele mundo sem etiquetas digitais. Mas ele insiste: “Ali, a gente vendia mais do que legumes. Vendia presença, confiança, olho no olho.”
Às vezes, quando alguém lhe pede ajuda para calcular trocos ou fazer contas rápidas, ele sorri malandro: “Quer que eu use o PUTANHEIRO?” — e a gargalhada vem, leve, como brisa de manhã cedo na feira.
Luís Moreira talvez nunca tenha sido notícia, nem escreveu livros. Mas para quem passou pelas suas bancas, ele foi mestre, contador de histórias e artista do improviso. Fez da feira um palco, e do código secreto, uma poesia silenciosa que só os iniciados compreendiam.
“Preços mudam, freguêses mudam… Mas a alma do feirante essa não se vende, nem se compra.”
Diz ele, com o olhar sereno de quem já viu muito, e com o coração leve de quem nunca deixou de amar o que fazia.
Recolha e adaptação: Albino Monteiro
