A Memória de António Marques, na Dança do Martelo
A Memória de António Marques, na Dança do Martelo
Aos 82 anos, António Marques ainda se emociona ao ouvir o som seco de um martelo bater na chapa. Natural de Palmela, passou mais de vinte anos no Brasil, onde aprendeu o ofício de lanterneiro com o tio Serafim, homem rígido mas justo, dono de uma pequena oficina nos arredores de Belo Horizonte.
“Lá, chamavam-nos de artistas do ferro”, conta António, com o olhar perdido entre as lembranças. “Cada carro que chegava amassado era um desafio. Não se trocava nada. A gente moldava a lata como se fosse barro. Tinha que ter olho, mão firme e paciência. Era como esculpir.”
António começou aos 16 anos, varrendo o chão da oficina do tio. Observava tudo em silêncio: o calor das chapas, o cheiro do metal aquecido, os golpes cuidadosos do martelo sobre as curvaturas. Com o tempo, aprendeu a linguagem das deformações, a antecipar o retorno das formas. Era, como diz, “uma conversa entre o aço e a alma”.
Depois de duas décadas no Brasil, regressou a Portugal com as mãos calejadas e um orgulho difícil de esconder. Estabeleceu-se por conta própria na zona de Setúbal, num pequeno espaço onde fazia de tudo: batia chapa, pintava, alinhava estruturas e ainda arranjava tempo para ensinar os mais novos que passavam por ali.
Nos primeiros anos, o boca-a-boca era o seu maior anúncio. “António endireita tudo”, diziam os clientes. Carros velhos, sinistrados, carros que já tinham sido dados como perdidos. Ele trazia-os de volta, quase como novos. Nunca com pressa, sempre com precisão.
Mas os tempos mudaram.
Hoje, sentado no banco de madeira à porta da antiga oficina, António balança a cabeça com um certo desencanto. “Agora é só trocar peças. Se amassou, deita-se fora. Nada se conserta, tudo se substitui. O que era arte virou logística.”
A oficina, agora fechada, ainda guarda o cheiro a tinta e os vestígios de pó metálico. As ferramentas repousam como relíquias num altar de ferro e saudade. Os netos, sempre com os telemóveis na mão, acham graça às histórias do avô, mas não compreendem bem o fascínio por um trabalho que exige tanto tempo e entrega.
“Sabes, eu ouvia a dor do carro”, diz António, meio a brincar, meio a sério. “Cada pancada tinha uma história. Um susto, uma distração, uma pressa. E a gente ali, a devolver forma ao que a vida tinha amassado.”
Com um pano velho, limpa o capô de um Opel Kadett antigo, o último carro que arranjou antes de se reformar. Está longe de perfeito, mas tem a marca do seu toque: uma curva ligeiramente imperfeita que só ele saberia corrigir.
António Marques não deixou herdeiros no ofício. Mas deixou uma lição simples e valiosa: há beleza na reparação, há dignidade no esforço de recuperar o que parece perdido. E há memória em cada chapa batida com cuidado – memória de um tempo em que o trabalho era mais que um serviço: era uma forma de deixar arte onde só havia acidente.
Recolha e adaptação: Albino Monteiro
