O Guardião do Tempo: A Vida Singular de Sr. Marcelo

 

O Guardião do Tempo: A Vida Singular de Sr. Marcelo

Aos 81 anos, o Sr. Marcelo Figueiredo é mais do que um simples restaurador de antiguidades — é um verdadeiro guardião do tempo. Vive numa casa centenária nos arredores de Évora, que mais parece um pequeno museu do que um lar comum. Quem o conhece sabe que, ao entrar ali, é preciso desacelerar, respirar fundo e deixar-se levar pelas histórias sussurradas pelos objetos do passado.

Desde muito jovem, Marcelo demonstrava um fascínio incomum por tudo que tivesse marcas do tempo: uma dobradiça enferrujada, uma moldura desgastada, um relógio parado há décadas. Enquanto outros rapazes preferiam bicicletas e futebol, ele mergulhava em feiras de velharias com o avô, ouvindo com atenção as histórias por trás de cada peça comprada.

Com o passar dos anos, transformou essa paixão em ofício. Tornou-se restaurador de antiguidades e, com mãos pacientes e olhos minuciosos, devolvia vida a móveis, relógios, baús, rádios e porcelanas. “Cada peça tem uma alma adormecida. Cabe a mim acordá-la com respeito”, costuma dizer, passando um pano macio sobre uma poltrona do século XIX que acabou de restaurar.

A sua casa, onde viveu com a esposa Luísa — falecida há dez anos — é hoje um cenário de encantamento. Os amigos brincam que não sabem se o visitam pelo prazer da conversa ou pela curiosidade de ver “o que voltou a brilhar desde a última vez”. E ele, com um sorriso travesso, responde: “Que importa o motivo, desde que venham.”

Em cada canto da casa há algo que chama a atenção: um gramofone que ainda toca discos antigos, um aparador em pau-santo resgatado de um convento abandonado, uma cadeira do século XVIII com entalhes que contam histórias mudas. Mas nada supera a beleza de um velho relógio de parede, que toca a cada hora como se marcasse, não o tempo presente, mas a eternidade da memória.

Sr. Marcelo não tem filhos, mas acolheu gerações de aprendizes e vizinhos curiosos, sempre disposto a explicar o nome de uma madeira rara ou o segredo para limpar bronze sem ferir sua dignidade. Entre xícaras de chá, histórias de infância e lembranças da amada Luísa, partilha lições de vida com quem o escuta com atenção. “Restaurar não é esconder o tempo”, costuma dizer, “é fazer com que ele continue a contar a sua história, com dignidade.”

Hoje, mesmo com os movimentos mais lentos e a vista menos precisa, Sr. Marcelo ainda se senta todos os dias à sua bancada de madeira, sob a luz quente da janela, restaurando alguma peça esquecida — às vezes mais por companhia do que por necessidade. E quando alguém pergunta se ele não pensa em vender tudo aquilo e mudar-se para um lugar mais simples, ele apenas sorri e responde: “Isso aqui não é só uma casa. É a memória viva do que fomos… e do que ainda podemos ser.”

Sr. Marcelo é a prova de que, com amor pelo passado e respeito pelas marcas do tempo, até os objetos mais esquecidos podem voltar a brilhar — e, com eles, o coração daqueles que se permitem lembrar.

Recolha e adaptação: Albino Monteiro