Dona Inês – A Rainha da Cozinha

 

Dona Inês – A Rainha da Cozinha

Aos 84 anos, Dona Inês é uma verdadeira celebridade em Vila Real. Conhecida como “Dona Inês das Filhós”, ela, no entanto, prefere um título mais criativo: A Rainha da Cozinha. E quem a conhece não ousa discordar. Basta entrar na sua casa para perceber que ali vive uma mulher especial — entre plantas bem cuidadas, panos coloridos pendurados com charme e gargalhadas que parecem ecoar nas paredes.

Inês foi mãe cedo, de um único filho, António, que, segundo ela, “nasceu já a correr e só parou para comer”. Criá-lo sozinha foi um desafio, mas também um espetáculo de humor e imaginação. Quando o rapaz fazia travessuras — o que era frequente — não havia gritos nem castigos severos. Havia sopa quente. “Estás de castigo… mas só depois da sopa!” dizia ela, de avental posto e colher de pau em punho, como se estivesse a liderar um exército saboroso.

A cozinha sempre foi o seu trono. Ali, Dona Inês criou um universo só dela, onde cada prato vinha acompanhado de uma canção inventada, e cada refeição era servida com um conselho disfarçado de história. “Se a massa desanda, mexe com carinho — como se fosse gente”, dizia, enquanto preparava os bolinhos de abóbora que hoje os netos pedem como se fossem tesouros.

O tempo passou, e o pequeno António virou homem — reformado agora, mas sem fôlego para acompanhar o ritmo da mãe. “Ela tem mais energia aos 84 do que eu com 40!”, confessa, enquanto observa a mãe a preparar três tabuleiros de filhoses e a organizar um torneio de cartas entre os netos. Dona Inês ri com gosto e responde: “Claro, filho. É que eu fui treinada por ti!”

Às sextas-feiras, a casa da Dona Inês transforma-se. Chegam filhos, netos, noras, vizinhos e até o padeiro, que, mesmo sem precisar de pão, aparece “só para ouvir as histórias”. Ali, não há lugar para tristeza. Entre o cheiro de pão quente, partidas de cartas (que ela vence com uma mistura de sorte e sabedoria) e histórias bem contadas — como aquela em que garante ter salvo um gato preso numa árvore de Natal —, a alegria reina absoluta.

Hoje, Dona Inês continua a ser mais do que uma avó. É a conselheira do bairro, a mestre da cozinha, a rainha das festas e, acima de tudo, o coração de uma família que cresceu ao seu redor. Envelhecer, para ela, não é um peso — é uma forma de acumular mais histórias para contar.

E enquanto houver panelas ao lume, filhos à mesa e gargalhadas na varanda, Dona Inês não envelhece — apenas fica mais divertida.

Recolha e adaptação: Gabriel Silva