Sebastião e as Asas do Sonho

Sebastião e as Asas do Sonho

Na pequena vila de Ponte da Barca, entre o murmúrio das águas do Lima e o chilrear dos pássaros ao amanhecer, vive Sebastião, um senhor de 72 anos que sempre olhou para o céu com curiosidade. A vida não lhe deu muitas oportunidades de explorar o mundo. Criado no campo, tornou-se um habilidoso carpinteiro, moldando tábuas e troncos como quem esculpe histórias. Teve quatro filhos, todos agora dispersos pelo mundo — Catarina em Londres, Luís em São Paulo, Artur em Paris e Joana em Toronto.

Desde criança, Sebastião sempre ficava encantado ao ver os aviões cortando os céus, deixando rastros brancos no horizonte. “Será que lá em cima o mundo parece menor ou maior?”, perguntava-se, sem nunca imaginar que um dia iria descobrir por si mesmo. Durante décadas, aquele desejo permaneceu guardado, como um pássaro que nunca ousara abrir as asas.

Até que, num aniversário especial, os filhos decidiram levá-lo a Lisboa e presentear-lhe com uma viagem de avião. O destino pouco importava, porque o verdadeiro sonho era estar lá em cima. No aeroporto, enquanto esperava, olhava fascinado os aviões que pousavam e decolavam. “Parecem pássaros de ferro, mas voam como se fossem leves!”, disse, com um sorriso de menino.

Quando finalmente chegou o momento, sentou-se junto à janela, os dedos pousados no encosto do assento como se quisessem segurar-se ao instante. O motor roncou, o avião começou a se mover e, de repente, sentiu-se elevado. O chão ficou para trás, as casas tornaram-se pequenas, os rios como linhas de prata. E então, tudo se expandiu — o céu abriu-se diante dos seus olhos como um infinito azul. “É como estar dentro de um sonho!”, murmurou.

Naquele voo, entre nuvens macias e o brilho do sol, Sebastião compreendeu o que era voar: não apenas elevar-se fisicamente, mas sentir o coração alçar voo para lugares que antes só existiam na imaginação. Quando aterraram, voltou a olhar o céu e sorriu. “Já sei a resposta… Lá em cima, o mundo não parece menor. Parece infinito.”

Mas a história de Sebastião não terminou ali. Aquela primeira viagem foi um despertar. Antes mesmo de desembarcar, já imaginava outros voos, outras descobertas. Pela primeira vez em muitos anos, pegou um mapa-múndi e começou a marcar destinos: Londres, São Paulo, Paris, Toronto. Queria visitar os filhos, ver com seus próprios olhos os lugares sobre os quais sempre ouvira falar nas chamadas telefónicas ou nas cartas cheias de saudades.

Sem hesitar, começou a programar viagens. “Se consegui subir uma vez, posso subir quantas vezes quiser!”, dizia com entusiasmo. O desejo de voar transformara-se em uma paixão por explorar. Nos meses seguintes, aprendeu sobre aeroportos, fusos horários e até algumas palavras em inglês e francês para se preparar para as suas aventuras.

Quando finalmente chegou a Londres para abraçar Catarina, olhou pela janela do avião e sentiu aquela emoção novamente — a liberdade, o mundo que se expandia. Depois vieram Paris, São Paulo, Toronto. Cada voo era mais do que um deslocamento geográfico, era uma prova de que sonhos antigos, guardados por anos, podem finalmente ganhar asas.

Hoje, já com 80 anos, Sebastião diz a todos que um sonho, quando constante na vida, tem tudo para se tornar realidade. O céu, antes apenas uma paisagem distante, tornou-se a sua segunda casa. E cada decolagem traz consigo um novo horizonte.

Por: Albino Monteiro