O Recomeço de António Silva

 


“O Recomeço de António Silva”


António Silva tinha 76 anos e vivia numa pequena vila do Alentejo chamada Redondo. Alto, magro, de pele marcada pelo sol e mãos firmes apesar da idade, António era conhecido por todos como "o senhor do relógio". Não porque consertasse relógios — embora soubesse fazê-lo —, mas porque era raro vê-lo sem consultar as horas. Sempre tinha a agenda certa, as rotinas bem definidas, os passos contados.


Durante 45 anos, António foi funcionário dos CTT. Começou a entregar cartas de bicicleta e terminou atrás do balcão, conhecido por todos pela pontualidade, pela calma e pela educação. Reformou-se aos 65 com honra, festa e bolo na estação de correios. Voltou para casa com um sorriso discreto e o pensamento típico de quem cumpriu o dever.


Mas a reforma não lhe trouxe descanso — trouxe vazio. O relógio, que antes lhe organizava a vida, passou a marcar o tempo que ele não sabia como usar. As manhãs eram longas, os cafés pareciam iguais, e o silêncio da casa, viúvo há quatro anos, fazia eco.


Um dia, enquanto arrumava o sótão, encontrou uma caixa de madeira com cadernos antigos. Eram diários e poemas que escrevera na juventude, quando tinha 20 anos e sonhava ser escritor. Sorriu ao ler os versos, simples mas sentidos, escritos com caneta azul num português cheio de emoção.


Naquele mesmo dia, sentou-se à mesa da cozinha com uma folha branca e uma caneta. Escreveu devagar, como quem vai descobrindo um caminho já conhecido mas esquecido. Escreveu sobre o campo, sobre o amor da juventude, sobre o cheiro das cartas abertas com cuidado. Escreveu todos os dias durante uma semana. Depois duas. Depois um mês.


A neta, Leonor, de 22 anos, que estudava em Évora, visitou-o num fim de semana. Viu os papéis espalhados e perguntou, curiosa:


— Avô, que é isso tudo?


— Rabiscos de velho — respondeu, envergonhado.


Ela leu uma página e ficou em silêncio. Depois disse:

— Avô... isto está lindo. Isto é um livro.


Foi Leonor que o convenceu a organizar os textos e a publicá-los de forma independente, numa pequena gráfica local. Escolheram juntos o título:

“Coisas Simples, Palavras Fundas”.


O livro foi lançado numa tarde de primavera na biblioteca municipal. Vieram 40 pessoas — familiares, amigos, antigos colegas dos correios. António leu um poema com a voz a tremer, mas firme. No final, aplaudiram de pé.


Nas semanas seguintes, começaram a chegar mensagens de pessoas da vila e de fora:

“Lembrei-me da minha avó ao ler o seu texto.”

“Chorei com o poema do carteiro.”

“Obrigada por dar voz às memórias que também são nossas.”


António, que achava que a vida já não lhe ia trazer surpresas, tornou-se escritor aos 76 anos. Foi convidado a falar em escolas, a participar em encontros literários e, o mais importante, voltou a sentir-se vivo por dentro. Não por fama ou vaidade, mas porque finalmente estava a dizer o que sentia — e alguém estava a ouvir.


Hoje, já prepara o segundo livro, com o apoio fiel da neta editora. Quando lhe perguntam como é que encontrou inspiração tão tarde, responde com simplicidade alentejana:


— Não foi tarde. Foi quando tinha de ser. A vida não tem hora certa, tem ritmo. Às vezes é no silêncio que a gente ouve o que tem mesmo de dizer.


Recolha e adaptação: Gabriel Silva