A Lenta Magia da Vida de Dona Teresa
A Lenta Magia da Vida de Dona Teresa
Dona Teresa nasceu em 1942, numa manhã chuvosa de fevereiro, na vila de Arcos de Valdevez, no norte de Portugal. Era a filha do meio de sete irmãos, numa casa pobre mas animada, onde se partilhava o pão e as histórias junto ao lume. O pai, agricultor, dizia sempre que “quem semeia com esperança colhe com alegria”, e essa frase guiaria Teresa durante toda a sua vida.
Desde pequena mostrou uma curiosidade aguçada e uma memória prodigiosa. Na escola da aldeia era das melhores alunas, mas a vida nem sempre segue os nossos desejos: aos 13 anos, teve de deixar os estudos para ajudar em casa. A mãe adoeceu e Teresa tornou-se uma pequena adulta, responsável pelos irmãos mais novos e pelos afazeres domésticos. Ainda assim, roubava horas à noite para ler livros emprestados pelo senhor padre ou pela professora primária que a tinha em grande estima.
Aos 19 anos, foi trabalhar para o Porto como empregada interna na casa de uma família abastada. Lá conheceu um mundo diferente, aprendeu a falar com mais correção, e até ganhou gosto pela música clássica, ouvindo o velho rádio na copa da cozinha. Foi também no Porto que conheceu Jorge, um jovem operário dos Estaleiros de Viana, com quem trocava cartas durante meses até que ele a pediu em casamento.
Casaram-se em 1964. Mudaram-se para Viana do Castelo, e Teresa começou a trabalhar como costureira por conta própria. Com uma máquina de costura Singer herdada da tia, começou a fazer vestidos para as vizinhas, roupas para crianças, cortinas e até trajes tradicionais para ranchos folclóricos. Com o tempo, montou um pequeno ateliê no rés-do-chão da casa onde moravam.
Criaram três filhos com muito esforço, mas também com ternura. Teresa sempre fez questão de os ver de mochilas às costas a caminho da escola — era o seu maior sonho: dar aos filhos a oportunidade que ela não teve. E conseguiu. Um tornou-se professor, outro arquiteto, e a mais nova, enfermeira.
Aos 60 anos, já viúva, Teresa fez uma promessa a si mesma: iria aproveitar a vida. E assim fez. Inscreveu-se na universidade sénior da cidade, onde aprendeu pintura e italiano. Começou a caminhar todos os dias à beira-mar, e não raras vezes se sentava numa esplanada com o seu caderno de capa azul, onde escrevia memórias, reflexões e até receitas que ia inventando.
Aos 70 anos, realizou um dos seus maiores sonhos: viajou sozinha para Florença, Itália. Visitou museus, comeu gelado à sombra de catedrais e conversou com desconhecidos em cafés. Disse que nunca se sentira tão livre, nem tão jovem.
Hoje, com 83 anos, Dona Teresa continua a viver na mesma casa, agora rodeada de plantas, livros e lembranças. Todas as quartas-feiras ensina costura a jovens mães em situação de vulnerabilidade, como forma de “retribuir à vida o que a vida lhe deu”. Nos fins de semana, os netos invadem-lhe a casa e o coração. Adora cozinhar arroz de pato e contar histórias da sua juventude, muitas vezes com um toque de exagero e uma gargalhada no fim.
Apesar das rugas e das dores próprias da idade, Dona Teresa tem os olhos vivos, curiosos como aos 10 anos. Quando lhe perguntam o que a mantém tão serena e ativa, ela responde com simplicidade:
“Aprendi a não ter pressa. A vida é como um bordado: cada ponto conta, mesmo os que parecem pequenos ou fora do lugar.”
Dona Teresa é o espelho de uma geração que soube resistir, adaptar-se e florescer. A sua história não acaba com tristeza, mas com a certeza de que viver bem não é viver muito, é viver com propósito, um dia de cada vez.
Recolha e adaptação: Gabriel Silva
